segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A FUSÃO DE PALAVRAS NO INGLÊS - (Blend or portmanteau words)


Hangry e bromance (fusão ou portmanteau words)


Traduzido por Eduardo Rodrigues do texto original em:


Nossa página do Cambridge Dictionary no Facebook apresentou recentemente um post sobre fusão ou combinações de palavras. São palavras formadas pela combinação de duas outras palavras, como Brexit (abreviação de 'British exit') e brunch (uma combinação de 'breakfast' e 'lunch').

Algumas combinações existem há muito tempo. O "brunch", por exemplo, originou-se há muito tempo no final do século XIX. Outras foram inventadas mais recentemente. (Embora, às vezes, pareça que a palavra 'Brexit' exista há muito tempo, na verdade, foi inventada em 2012!) Aqui nós atentaremos para misturas relativamente recentes no idioma inglês.

Vamos começar com comida e comer. A mistura flexitarian (= flexible + vegetarian) reflete uma tendência recente na ingestão de carne. É relativa a uma pessoa que come principalmente comida vegetariana e, ocasionalmente, ingere carne: Na página 5, dez benefícios para a saúde de uma dieta flexitarian.
A palavra mocktail, (= mock + cocktail), que já existe há algum tempo, significa "um coquetel sem álcool": Os clientes podem desfrutar de uma variedade de coquetéis e mocktails.

Enquanto isso, uma pessoa que está um pouco irritada ou impaciente por não ter comido por um tempo, pode agora ser descrita informalmente como hangry (= hungry + angry): Pouco antes do almoço, ele tende a ficar um pouco "hangry".
Como você pode imaginar, a moda também gerou combinações. 
Jeggings (= jeans + leggings) são calças apertadas feitas de um material elástico que se parece com jeans: eu optei pelo conforto - jeggings e um moletom.

Skort ou skorts (= skirt + shorts), por sua vez, se refere a um par de bermudas com uma peça de pano na frente que dá a aparência de uma saia: Eu uso skorts para jogar tênis.

O lazer também possui algumas palavras combinadas. No Reino Unido, o glamping (= glamorous + camping) se refere a uma forma mais luxuosa e elegante de acampar que envolve cadeiras e camas confortáveis, aquecimento, etc.: Veja nossa gama de opções para glamping.

Um staycation (= stay + vacations) é um feriado que você desfruta em casa ou perto dela, ao invés de viagem para uma longa distância: Há sempre a opção staycation mais econômica.

Cosplay (= costume + play) é a atividade de se "vestir como" e fingir ser um personagem de um filme, história em quadrinhos, etc: Convenções de cosplay se tornaram um grande negócio.

Uma combinação que muitas vezes é ouvida em relação às celebridades e outras figuras públicas é bromance. Este termo informal - uma mistura de "bro" / "brother" e "romance" - refere-se humoristicamente a um relacionamento próximo e amigável entre dois homens. O aparente bromance entre os dois líderes foi observado na imprensa.

Continuando com os homens, o termo desaprovador mansplain (= man + explain) surgiu nos últimos anos. Se um homem mainsplain algo a uma mulher, significa que está explicando sobre o que ela já conhece de cor e salteado: Acabei de ouvir um sujeito mansplain meu próprio trabalho!


E você? Já ouviu ou leu alguma outra combinação de palavras recentemente?

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Todo bom freelancer comete erros - Assuma os seus




Todo bom freelancer comete erros

de Marc van Sittert
06 de junho de 2018
Lidando com seus erros como freelancer.

Traduzido por Eduardo Rodrigues / original em:


Esta é uma postagem de um membro da comunidade Freelancers Union. Se você estiver interessado em compartilhar sua experiência, sua história ou algum conselho que ajudará um colega freelancer, sinta-se à vontade para enviar seu post para nós aqui.

Uma vez que superei minha super-sensibilidade de jovem para cometer erros - às vezes caros - ao iniciar como empregado, no final dos anos 80, lentamente cheguei a um ponto em minha vida profissional onde percebi que deveria ser aceitável cometer erros com o dinheiro do chefe. Como funcionário. "Yuuugh!" é como isso soa quando dito em voz alta. E é aceitável - acontece o tempo todo, e é chamado Vida. Percebi também que o próprio termo “erro” é muito duro; e traz muita negatividade e medo.

E não passa de Vida

Vamos ser claros - Quero dizer que "é chamado de Vida" tentar fazer o seu melhor. O fato de os erros acontecerem pode ser uma desculpa preguiçosa para pessoas negligentes, mas não acho que se aplique a ninguém que esteja lendo isso. Estou conversando com aqueles que se importam, que entendem de profissionalismo e sentem obrigação de produzir um ótimo trabalho para os seus clientes. Pessoas "antenadas". Pessoas boas. Nós.
Se é uma regra inevitável dos negócios que funcionários são menos eficientes em termos de custo, então também é aceitável que você cometa erros como freelancer. "Uh, duuhh..." muitos estão pensando, tenho certeza disso, mas aposto alto que muitos mais estão assentindo silenciosamente, talvez até se perguntando como isso poderia ser possível. Os erros podem ser algo mais? No meu dicionário, "erro" tem sinônimos em "oportunidade, troca significativa, ponto de crescimento" e até, "ganho inesperado" e "benefício".

O valor dos erros

Sim, como freelancer, fora de um ambiente de escritório tradicional, você pode perder esse senso de pertencer, a capacidade de negociar em amizade ou camaradagem para contextualizar seus erros. Frequentemente. Talvez, na maior parte das vezes. Você não é um membro permanente de uma equipe. Mas você não está despojado do direito de ser humano! E você é um membro da equipe. O trabalho remoto tem valor hoje em dia. A interface humana do trabalho está diminuindo, sim, mas a aceitação de comunicações remotas ou digitalizadas está crescendo rapidamente para compensar isso.
Então, você não participa do bolo de aniversário da Susana, mas até isso vai mudar, tenho certeza. O Cripto-crédito garantirá sua ida à lanchonete local para comer o bolo enquanto parabeniza a Susana no Skype de algum escritório do futuro, que poderá ficar em qualquer lugar. Em todo o lugar. E já aqui. O ponto é, a aceitação fundamental de “erros” como um subproduto inevitável do trabalho mecânico do animal humano, não pode ser diferente para um freelancer.
O sábio concorda que não é um argumento para a aceitação do trabalho precário. É como impostos e morte - inevitáveis - e assim ele consegue encontrar benefícios nisso.

Alguma vez já submeteu um erro?

Seus dedos vão tremer ao ler a mensagem de um cliente apontando para os erros que você cometeu. E, sim, às vezes são vários em um único documento! Que horror! Até senti uma incômoda onda de suor emergindo na minha testa enquanto eu subia de volta para o escritório, para sentar de novo diante do computador, depois de um balido do cliente no WhatsApp, apontando para erros de digitação. Eu gostaria de poder empacotar todos os futuros erros, má digitação, e esses momentos de mudez patética, e mandar tudo para ser explodido ao amanhecer em alguma ditadura fascista. Porém, a desvantagem do trabalho remoto em não contar com a camaradagem do escritório para negociar, tem um outro lado - a oportunidade!

Não é apenas um clichê: os erros oferecem oportunidades

Quando ouvia os orientadores especialistas em negócios falarem sobre transformar erros em oportunidades, aquilo me soava estúpido. Como uma tentativa forçada de beijar um traseiro depois de transar. Mas, eles tinham razão. É uma oportunidade. Depois de um erro, tudo acaba ou continua de alguma forma. Certamente a oportunidade só existe no “de alguma forma”. Como todos nós cometeremos erros - da faxineira ao presidente - a própria palavra "erro" é um equívoco.
Os erros são, definitivamente, oportunidades, especialmente para os freelancers. Dentro de cada freelancer há uma diligência, uma determinação, uma via que conecta seu senso mais pessoal aos objetivos do cliente, característica difícil de encontrar tão forte em algum funcionário. Cometer um erro é uma oportunidade, uma oportunidade de superar de longe as obrigações de qualquer empregado de escritório, e, ao mesmo tempo, impressionar as pessoas.

Quando erros não são erros

O erro pode ser uma oportunidade para um cliente demonstrar sua abordagem autoritária e precipitada nos negócios, e despedir você. Rispidez. Mas, sim, pode acontecer que o relacionamento azede e morra. Eu, pessoalmente, não lamento a saída desse tipo de energia da minha vida.
Muito mais comum - sendo o chefe, provavelmente humano, assim como você, e que calçou o par com meias erradas nos filhos esta manhã, ou perdeu algumas tacadas enquanto jogava golfe com o chefe regional ontem - ele está muito mais interessado em ver você seguir em frente e reparar habilmente o erro do que qualquer outra coisa. Quer mais alguém que esteja envolvido saiba disso ou não. Se você me perguntar, o que conta mais na arena dos erros é a antecipação, o senso de oportunidade em consertá-los, mais do que qualquer outra consideração.
Assim como o dinheiro tem milhões de associações ruins, e apenas um valor bom, puro e simples - beneficiando a vida de outras pessoas -, os erros também podem ter milhões de facetas negativas que se agarram a eles como sujeira em uma fruta caída. Mas a oportunidade realmente boa e poderosa que reside naquele momento supera todas elas.

Mostre sua coragem

Há um grande benefício que surge em qualquer erro, e esse é a oportunidade de mostrar o seu valor. Fidelize o cliente. Talvez pela primeira vez nesse relacionamento mostre a alguém o seu senso de profissionalismo, seu coração, sua lealdade e seu comprometimento em fazer as coisas certas. Um erro eventual provavelmente será a primeira oportunidade para que o cliente conheça você de forma mais profunda. Possa ver quem você realmente é. Você aceita, pede desculpas, e efetua uma reparação imediata? Isso é o melhor que alguém na face da Terra pode fazer. É a atitude mais valiosa. Inestimável mesmo. Mais do que qualquer graduação ou currículo impressionante, as pessoas querem saber que você se importa.

As pessoas fazem negócios com pessoas em quem confiam

Quando você se sentar e encarar um erro, pule qualquer roteiro negativo que tenha recebido, ignore os demônios internos; concentre-se em acertar as coisas. Pronto. Como um profissional. Há um potencial maior para ganhar no futuro, e para sempre, do que em qualquer nova perspectiva.
É o núcleo das vendas atuais: encontrar o problema e ser a solução. Só porque você às vezes foi o problema, não o alivia de impor o seu jogo e se tornar a solução! Muitas vezes, nesses momentos, confiança valiosa, lealdade e compromisso futuro são construídos, e essas coisas valerão a pena. Abrace os erros pelo valor que eles carregam para nós; nós que, em primeiro lugar, não pretendíamos cometê-los. Boa sorte!

Sou redator freelance baseado em Joanesburgo, especializado em blockchain, cripto-moedas, análise e relatórios automotivos e de negócios. Auto-ditada, polímato, instrutor de ioga e meditação, tenho um blog prolífico sobre questões de relevância social e bem-estar pessoal.


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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Noite cristalina


fonte

Noite dos Cristais


Traduzido por Eduardo Rodrigues do original em:


"Judeu, um passo à frente para o fuzilamento!" Otto Sommer ordenou.
Na frente dele, um comerciante de meia-idade, descalço e trêmulo, vestido com um fino robe de algodão vermelho-sangue. Era quase meia-noite quando Sommer e seus cúmplices sádicos, três jovens agitados, com cerca de vinte anos, trajando camisas marrons invadiram o terceiro andar bem conservado em estilo art déco onde moravam Leo e Hannah Mayer. Com a trava de segurança levantada, Sommer apontou a pistola Luger 9 mm para a testa de Leo. Seria esta a sua segunda vítima naquela fria noite de novembro em Berlim?
No início daquela semana, Herschel Grynszpan, um belo judeu polonês de dezessete anos, vivendo ilegalmente em Paris, descobriu que a família na Alemanha havia sido destituída de suas propriedades e deportada para a Polônia. Aborrecido com a notícia, dirigiu-se à embaixada do Reich na rue de Lille 78, pediu para ver a secretária do embaixador. Grynszpan foi conduzido ao escritório de Ernst vom Rath. Corria o boato de que os dois se conheciam do bar Le Boeuf sur le Toit, bem popular entre os homossexuais de Paris.
Ao entrar no escritório de vom Rath, Herschel deixou escapar a raiva sobre a perseguição nazista aos judeus poloneses. Então, meteu a mão no bolso direito da capa de chuva e sacou o revólver de 6.35mm que comprara naquela manhã.
"Você não passa de um alemão imundo!" bradou.
Grynszpan disparou cinco tiros em rápida sucessão, mas apenas duas balas atingiram vom Rath; uma no ombro direito e outra no abdômen. O ferido foi levado às pressas para o Hospital Feminino de Alma, o mais próximo, e submetido a uma cirurgia salva-vidas. Os médicos conseguiram remover a bala alojada no estômago de vom Rath, porém, dois dias depois, ele não resistiu aos ferimentos. A notícia se espalhou por toda a Alemanha, juntamente com rumores de represálias aos judeus.
Agora, mais do que nunca, Hannah desejava ter seguido os passos de seu irmão mais novo, Albert. Ele se estabelecera como um talentoso arquiteto da Bauhaus em Tel Aviv. Albert tinha prometido ajudar a irmã e o cunhado a também se reinstalarem. Apesar das crescentes restrições impostas aos judeus, Leo não queria deixar a Alemanha. Ele ainda conseguia levar uma vida decente como comerciante têxtil, e não queria ter que lutar para reconstruir a vida, nem aprender uma nova língua. Leo estava convencido de que a onda de anti-semitismo dirigida pelos nazistas passaria, exatamente como muitas outras ao longo da história. O sionismo e o judaísmo não faziam parte de sua vida. A família Mayer não observava o Sabbath. Não se alimentavam à moda kosher. E no Natal até montavam uma pequena árvore e trocavam presentes. A rejeição de Leo à realidade que os cercavam assustara Hannah. Com o agravamento das condições, ela se tornava cada vez mais desiludida com aquele otimismo infantil.
Encarando a morte, Leo soltou a delicada mão suada da esposa e deu um passo à frente sobre o piso de madeira em vários tons de marrom escuro. Escondeu as mãos trêmulas nas costas. Quando parou, sentiu o cheiro de pólvora misturado com o desagradável bafo de cerveja vindo de Sommer.
"Eu, Capitão Leopold Mayer, sou um veterano de guerra condecorado."
Hannah ofegava horrorizada enquanto seu ritmo cardíaco acelerava. Um dos robustos militares apontou o bastão de madeira para a mulher.
"Seu marido está pedindo por isso!"
Leo acenou com a cabeça na direção da estante à sua esquerda. Ali estava uma foto, emoldurada em preto e branco, de si mesmo trajando o uniforme de infantaria de duas décadas atrás, em Berlim, prestes a embarcar em um trem que seguia para a frente ocidental, direto para o "inferno de Verdun". Ao lado, em uma caixa coberta de vidro, via-se a medalha de guerra da Cruz de Ferro do Império Alemão - Segunda Classe. Com o rosto drenado de todas as cores, Leo respirou fundo.
“Eu testemunhei muito derramamento de sangue na França, vi o Spree ficar com as águas vermelhas por dias a fio. Enfrentei milhares de balas,  nenhuma delas carregava o meu nome. Você e sua turma de criminosos não me assustam. Vá...vá em frente e atire em mim!"
Leo acreditava que a prova oficial de sua corajosa contribuição à pátria alemã era a apólice de seguro que o protegeria e à esposa Hannah. Ninguém precisava saber que a medalha fora concedida à todos de sua unidade devido a coragem durante uma invasão noturna às trincheiras francesas, um ataque no qual ele mesmo se sujou. Nunca mencionara a ninguém em casa que havia se contorcido em posição fetal durante as explosões dos ataques da artilharia pesada francesa. As noites eram interrompidas pelas luzes intensamente claras de cada explosão. Era como se o dia já houvesse raiado. Soldados foram feitos em pedaços, corpos deixados para se decompor, sem cabeças ou membros; restos não identificáveis.
Sommer manteve seu objetivo por mais alguns segundos. Então, tirou o dedo indicador do gatilho e baixou o braço. Assim que Hannah sentiu-se alíviada, Sommer bateu no rosto de Leo com o cabo da Luger. O atingido caiu pesadamente no chão.
"Pare!" Hannah implorou.
"Cale a boca!"
A dor excruciante do osso fraturado na face direita tomou conta de Leo. Hannah estendeu as mãos e precisou da força dos dois braços para o levantar. Ele estava aturdido e sangrando do golpe profundo sob o olho direito.
“Hanz, amarre as mãos dele e o leve para baixo. Deixe-o com os outros para que seja conduzido à estação ”, disse Sommer.
Leo foi arrastado para fora do apartamento; as mãos amarradas nas costas. A porta do vizinho estava entreaberta, pela brecha ele conseguiu ver Marie Fischer espiando o corredor. Hanz também vislumbrou-a  enquanto empurrava Leo para frente.
"Feche a porta e cuide da sua vida!" Hanz ordenou.
Marie obedeceu. Com Leo ausente, Sommer voltou sua atenção para Hannah.
"Você, fique comigo. Nós ainda não terminamos por aqui."
Ele relembrou aos companheiros sobre a tarefa à frente.
"Destruam tudo. Quebrem as janelas. Rasguem a arte degenerada dessas paredes. Tragam-me todas as joias. Temos mais visitas para fazer hoje à noite!"
Leo foi empurrado pela escada em espiral. Ao lado do apartamento do primeiro andar, tropeçou no corpo sem vida de Joseph Bamberger, um viúvo com quase setenta anos. Estava de bruços, morto por um único tiro na parte de trás da cabeça. Seus olhos escuros estavam bem abertos. A quipá de seda negra, reservada aos funerais, permaneceu agarrada em sua mão direita.
"Siga em frente se não quiser acabar como o seu vizinho!"
Hanz empurrou Leo no meio do último lance de escadas. O refém perdeu o equilíbrio na entrada principal e desabou na calçada. Voltou a ficar em pé e assim que se endireitou, o sofá de veludo azul de sua sala caiu logo à frente, espatifando-se em muitos pedaços. Após um suspiro de alívio, virou-se e olhou para cima. Apenas os dois apartamentos com ocupantes judeus estavam iluminados.
Leo se deu conta da fila de homens alquebrados, em pé, na calçada do outro lado da rua, nenhum deles aparentava ter idade avançada. Outro soldado ameaçava-os com a arma. Apesar de quase não interagir com a comunidade judaica, reconheceu alguns rostos. O mais novo na fila não passava dos dezoito anos. Ao longe, lá pelas bandas onde a sinagoga estava localizada, surgiu uma nuvem escura de fumaça.
"Felix, aqui está outro porco para a sua coleção!"
Hanz empurrou Leo para a rua. O homem recém aprisionado caiu na calçada cheia de vidro quebrado e sofreu cortes nas mãos e nos pés. Um dos homens na fila estendeu a mão e o ajudou a se levantar.
"Onde está a polícia?" Leo perguntou.
“Shhh!!! sussurre, ou então esses bárbaros baterão em você até que morra”, disse o homem.
“Esqueça a polícia. Eles não vão impedir essa brutalidade. Nem os bombeiros ”, disse outro homem na fila.
A polícia chegou só para observar se a revolta da multidão permanecia sob controle. Os bombeiros estavam a uma certa distância para garantir que as chamas não se estendessem além das propriedades judaicas. A destruição sistemática do apartamento da família Mayer continuou. Na frente dos homens detidos, mais peças de móveis desabavam na rua, assim como talheres, utensílios de cozinha, vasos, livros rasgados, peças de roupas e enxoval de cama. Pinturas emolduradas e fotografias da família foram arrancadas e jogadas fora. "Vingança por Paris!" foram os gritos insanos ouvidos repetidamente.
Lá no andar de cima, Sommer pressionava a Luger contra as costas de Hannah. Ele a obrigou a percorrer o corredor e a entrar no quarto principal decorado em preto e branco. Fechou a porta atrás de si e agarrou uma Hanna desprevenida.
"Tire essas roupas de dormir e abaixe a calcinha."
"Por favor, não... o que eu fiz para você?"
Sommer apontou a Luger para o peito dela. Hannah vacilou.
Faça o que eu digo.”
Ela se rendeu e revelou o corpo feminino de curvas notáveis e seios grandes. Pudicamente, a mulher cobriu as partes íntimas.
"Deite-se na cama!"
"Me deixe sair. Eu imploro!"
“Shhh!
Sommer a empurrou para a cama de madeira. Ela caiu de costas no colchão macio.
"Abra as pernas..."
Hannah hesitou novamente. Sommer pressionou a Luger contra o joelho direito e, com a mão esquerda no joelho oposto, a fez se abrir. Totalmente exposta, Hannah nunca se sentira tão vulnerável. Até então, só Leo a tinha visto descoberta.
"Você ainda é uma mulher bonita."
Sommer virou-se e desligou a luz que pendia do teto. O quarto ficou escuro; Hannah não conseguiu ver mais nada.
"Não se preocupe, não vou tocar em você."
Em poucos segundos, a visão dela se adaptou à escuridão. A essa altura, Sommer estava de volta à sala de estar.
“Ela é toda de vocês. Façam rodízio. Divirtam-se! Lembrem-se de não gozar dentro dela." Otto Sommer ordenou.
Hannah ouviu tudo, mas permaneceu paralisada. Concluiu que não havia razão para resistir. Mesmo o menor dentre os três poderia dominá-la. Hannah ficou em silêncio e perdeu o controle sobre seu corpo. Evitou contato visual com os agressores. Para seu desgosto, sentiu que estava molhada. Hannah não entendeu a proteção natural de seu corpo.
Ela queria infligir dor naqueles animais, enfiando as unhas pontiagudas bem fundo nas costas dos estupradores. Mas temia que eles a espancassem até a morte. Suou profusamente. O asqueroso mais pesado foi o último. Ele a virou para sodomizá-la. Hannah enterrou a cabeça no travesseiro de plumas macias e mordeu o mais forte que pôde. Acabou por desmaiar.
Na manhã seguinte, acordou congelando no frio da manhã ártica que se espalhara pelo apartamento. Obrigou-se a sair da cama. Hannah sentiu repugnância pelos restos pegajosos de sêmen ejaculado por todo o seu corpo. Evitou o grande espelho de parede emoldurado em ouro no quarto, o único vidro que parecia intocado no apartamento. Ficou horrorizada com a destruição. Manchas de sangue espalhadas pelo chão da sala seguiam em direção à entrada principal. O rádio fora esmagado, as lâmpadas quebradas, o chão estava cheio de cacos de vidro, fragmentos de móveis, utensílios quebrados e páginas de livros rasgados. As cortinas tinham sido esfarrapadas. Um forte cheiro de urina emanava dos tapetes. O premiado tabuleiro de xadrez feito à mão pelo pai de Léo, um carpinteiro amador, estava em pedaços depois de ter sido jogado contra a parede e, em seguida, pisoteado.
Hannah procurou refúgio no clássico banheiro de azulejos brancos. Por duas vezes certificou-se de que a porta estava trancada. Na banheira cheia de água morna, esfregou-se repetidamente, mas a sensação de imundície não a abandonava.
"Shonda, shonda, shonda!" ela repetia.
Com o pensamento fixo em se matar, Hannah perdeu o controle, lágrimas acumuladas e silenciosas explodiram e continuaram fluindo pelo que pareceu uma eternidade.
Perto dali, dois agentes à paisana da Gestapo traziam Leo da câmara subterrânea de tortura. Eles o empurraram para uma cela escura, abarrotada e sem janelas, fedida de suor e dejetos corporais; líquidos e sólidos. Leo desabou pesadamente sobre o chão gelado. Nenhum dos outros apáticos colegas de cela reagiu. O recém-chegado estava coberto de sangue e hematomas. Durante a noite, haviam-no açoitado com chicote de couro e espancado com cassetete de borracha. Ele implorou para que parassem. Seus gritos apenas encorajaram mais sadismo. Entre as surras, ele era jogado em um banho de água congelante. Algumas vezes, derramavam água em seu nariz. A tortura parou quando ele desmaiou, e uma nova vítima o substituiu.
Quando Leo não apareceu para trabalhar no final da tarde, seu amigo de longa data e parceiro de negócios, Dieter, fechou o escritório e saiu mais cedo do que o habitual para procurá-lo. O assunto do dia girava em torno dos ataques noturnos contra os judeus por toda a cidade. Dieter correu para o apartamento de Leo. Encontrou o lugar destrancado. A porta abriu emitindo um rangido. Seu coração batia forte enquanto ele, a passos lentos, adentrava a sala e se dava conta da destruição generalizada. Encontrou Hannah contorcida no quarto. Ela, em silêncio, limitou-se a cobrir o rosto com os braços. O visitante não tinha certeza se fora notado. Se aproximou, inclinou-se, mas não tocou nela.
“Hannah, sou eu. Dieter."
Ela revelou o rosto; os olhos estavam vermelhos e inchados.
“Deixe-me levá-la de volta para nossa casa. Ingrid cuidará de você. Ela vai te ouvir, se você quiser conversar. Vou continuar procurando por Leo."
Hannah se sentou e estendeu a mão para Dieter. Agarrou-lhe o sobretudo e soluçou no peito dele.
"Por favor, não me deixe."
"Não. Prometo que não."
Junto, embalaram alguns itens essenciais e, abandonaram a devastação.
Dieter e sua esposa Ingrid, uma enfermeira experiente, trataram Hannah como o fariam entre si. Nos dias que se seguiram, Hannah foi recuperando a força. Ela mal falava, não compartilhou nenhum detalhe do ataque, nem se aventurou do lado de fora. Hannah não perdia a esperança de que Leo voltaria. Dieter visitou hospitais e delegacias de polícia, mas não havia vestígios do amigo e parceiro. Então, um dia as notícias chegaram. A Gestapo transferira Leo para o campo de concentração de Sachsenhausen, ao norte de Berlim. Lá, ele sofreu mais intimidações, espancamentos e humilhações. Certa manhã, os guardas do acampamento chegaram e leram uma lista de nomes. Aqueles convocados eram veteranos de guerra, e estavam livres para partir. O nome de Leo estava na lista, porém, naquela manhã, ele jamais acordou. Para Hannah, não houve nenhum corpo a resgatar, nenhum funeral para organizar. Desolada, afundou na depressão, evitava espelhos, soluçava a maior parte do dia e da noite, recusava-se a tomar banho e, sem apetite, tornara-se perigosamente magra. A notícia de sua condição desesperada chegou a Albert em Tel Aviv.
Algumas semanas depois, Marie, ao sair do apartamento notou, do outro lado do corredor, uma jovem mãe e seu filho. A mulher estava destrancando a porta do apartamento restaurado da família Mayer. Ela usava um vestido simples, sem maquiagem e mantinha os longos cabelos loiros em um coque. O filho de dez anos estava trajado com o uniforme de inverno da Deutsche Jungvolk, exibindo uma única alça preta no ombro direito.
"Boa tarde? Sou Frau Fischer."
“Boa tarde… me desculpe por não termos tido a chance de nos apresentar mais cedo. Acabamos de nos mudar. Eu sou Frau Charlotte Sommer. E esse é meu filho Klaus. Prazer em conhecê-la."
“Ah… você tem um garoto bonito. Deve lhe trazer muita alegria."
"E ele nos deixa muito orgulhosos."
" Tenho certeza disso. Que tal o apartamento?"
"É perfeito. Justo o que precisávamos. Estou tão feliz por meu marido Otto ter encontrado esse lugar. Espero que em breve você o conheça."
“Acredito que já o tenha conhecido quando ele veio ver o apartamento pela primeira vez. Um casal sem filhos morou aqui por muitos anos. O marido foi assassinado há algumas semanas. Muito trágico. A última vez que ouvi, a viúva deixou a Alemanha para começar uma nova vida na Palestina. 
Desejo-lhe um bom dia, Frau Fischer. Heil Hitler!"

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