segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Como os livros podem competir com as poderosas distrações digitais?




Continuação da postagem de 17.12.2018 - O poderoso bombardeio digital que interfere em nossas atividades diárias.

Como os livros podem competir?

Agradando-nos à morte

Há um famoso estudo com ratos cujos cérebros foram ligados a eletrodos. Quando os ratos pressionavam uma alavanca, uma pequena carga era liberada em parte do cérebro, estimulando a liberação de dopamina. Uma alavanca de prazer .
Podendo escolher entre alimentos e dopamina, eles optaram pela dopamina, muitas vezes até o ponto de exaustão e fome. Preferiam a dopamina ao sexo. Alguns estudos registraram ratos pressionando a alavanca de dopamina 700 vezes em uma hora.
Nós fazemos a mesma coisa com o nosso e-mail. Atualizar. Atualizar.

Não há nenhum universo lindo do outro lado do botão de atualização de e-mail e, ainda assim, é a atração por esse botão que continua me afastando do trabalho que estou fazendo, de ler livros que quero ler.

Por que os livros são importantes?

Quando reflito sobre a minha vida, posso definir um conjunto de livros que me moldaram - intelectualmente, emocionalmente e espiritualmente. Os livros sempre foram uma fuga, uma experiência de aprendizado, um salvador, mas além disso, mais do que isso, certos livros se tornaram, ao longo do tempo, uma espécie de cola que une minha compreensão do mundo. Penso neles como nós de conhecimento e emoção, nós que unem o tecido do qual sou feito. Livros, pelo menos para mim, conseguem a proeza de me manter coeso.
Os livros, diferente da arte visual, da música, do rádio, e até do amor, nos forçam a caminhar através dos pensamentos de terceiros, uma palavra por vez, ao longo de horas, por dias. Durante essa travessia compartilhamos nossas mentes com a do escritor. Há uma lentidão, uma reflexão forçada exigida por esse meio que é único. Os livros recriam os pensamentos de outras pessoas dentro de nossas próprias mentes, e talvez seja esse mapeamento tão íntimo das palavras de outro alguém, que por conta própria, sem estímulos externos, dão poder aos livros. Os livros nos forçam a deixar que os pensamentos de outros habitem em nossas mentes, completamente.
Não são apenas transferidores de conhecimento e emoção, mas um tipo especial de instrumento com o poder de transformar o eu atual em outro eu, que permite a experimentação de ideias e emoções estrangeiras.
Essa supressão do eu também é uma espécie de meditação - e, embora os livros sempre tenham sido importantes para mim por si mesmos (pré-digitais), começou a me ocorrer que “aprender de novo a ler livros” pode ser uma maneira de começar a livrar minha mente desses detritos digitais encharcados de dopamina, essa lavagem sem sentido da informação digital, e teria um duplo benefício: eu estaria lendo livros de novo, e voltaria a recuperar a minha mente.
E existem, geralmente, belos universos a serem encontrados do outro lado da capa de um livro.

Os problemas com as coisas digitais

A neurociência moderna confirma muitas das coisas que nós, sofredores da sobrecarga digital, conhecemos na prática, e muito. Essa multitarefa de sucesso é um mito. A tal da "Multitarefa" nos torna mais estúpidos. Segundo o psicólogo Glenn Wilson, as perdas cognitivas por causa da multitarefa são equivalentes ao hábito de fumar maconha. (ATUALIZAÇÃO: agradeço à Liza Daly por apontar que Glenn Wilson declarou publicamente que o estudo era parte de um programa pago de relações públicas, e foi deturpado na mídia. Veja: http://www.drglennwilson.com/Infomania_experiment_for_HP.doc)
Isso é ruim por muitas razões: nos torna menos eficientes no trabalho, o que significa que temos menos a fazer, ou temos menos tempo para gastar fazendo outras coisas, ou ambos.
Estar em uma situação na qual você tem que se concentrar em uma tarefa, e um e-mail não está lido na sua caixa de entrada, pode reduzir seu QI efetivo em 10 pontos. (A mente organizada, por Daniel J Levitin)
É pior do que isso, porque o constante saltar de uma coisa para outra também é desgastante.
Meus dias menos produtivos, os dias que passo a maior parte do tempo pulando entre projetos, e-mails, o Twitter e qualquer outra coisa, também são os dias mais exaustivos. Eu costumava pensar que minha exaustão foi a causa dessa falta de foco, mas o oposto pode ser verdade.
Gasta-se mais energia ao desviar sua atenção de tarefa para tarefa. Demanda menos energia se concentrar. Isso significa que as pessoas que organizam seu tempo de uma maneira que lhes permita se concentrar, não apenas farão mais, mas estarão menos cansadas e menos neuro-quimicamente esgotadas depois de fazê-lo. (A mente organizada, por Daniel J Levitin)

O problema definido

E assim, o problema é, mais ou menos, identificado:
  1. Eu não posso ler livros, pois o meu cérebro foi treinado para querer constantemente doses de dopamina que, por sua vez, são fornecida pelas interrupções digitais.
  2. Este vício de dopamina digital significa que tenho dificuldade em me concentrar: em livros, trabalho, família e amigos
Problema identificado, ou a maior parte dele. Existe mais.

Ah, e não se esqueça da televisão

Vivemos em uma idade de ouro da televisão, não há dúvida. As coisas que estão sendo produzidas nos dias de hoje são muito boas. E há muito disso.
Nos últimos dois anos, minha rotina noturna tem sido uma variação de: chegar em casa, vindo do trabalho, exausto. Certificar-me de que as garotas comeram. Certificar-me de que eu mesmo coma. Levar as meninas para a cama. Sentir a exaustão. Ligar o computador para assistir alguma coisa da nova era dourada da televisão. Mexer com e-mails de trabalho e, em geral, me distrair enquanto a TV da era dourada consome 57% da minha atenção. Ser ruim em assistir TV e ruim em lidar com e-mails. Ir para a cama. Tentar ler. Verificar e-mail. Tentar ler novamente. Adormecer.
Aqueles que leem são donos do mundo, e aqueles que assistem à televisão perdem-no. (Werner Herzog)
Não sei se Werner Herzog está certo, mas sei que nunca diria sobre a televisão - mesmo com as inúmeras grandes produções - o que digo sobre os livros. Não existem programas de televisão que, ao contrário dos nós, consolidem minha compreensão do mundo. Meu relacionamento com a televisão não é o mesmo que tenho com os livros.

E assim, uma mudança

E assim, a partir de janeiro, comecei a fazer algumas mudanças. As principais são:
  1. Não há mais Twitter, Facebook ou leitura de artigos durante o dia de trabalho (difícil)
  2. Nenhuma leitura de artigos aleatórios de notícias (difícil)
  3. Não há smartphones ou computadores no quarto (fácil)
  4. Nenhuma TV depois do jantar (desligadas, fácil)
  5. Em vez disso, vá direto para a cama e comece a ler um livro - geralmente em um e-reader (é fácil)
O mais chocante foi a rapidez com que minha mente se adaptou a leitura dos livros novamente. Eu esperava ter que lutar por essa concentração - mas não foi preciso fazer força. Com menos entradas digitais (sem TV pré-leito, especialmente), tempo extra (sem TV, novamente), e sem um dispositivo digital tentador à mão ... havia tempo e espaço para a minha mente se acomodar em um livro.
Que sentimento maravilhoso foi esse.
Estou lendo mais livros agora do que o fizera em anos. Tenho mais energia e foco do que tive há séculos. Ainda não dominei totalmente o meu vício em dopamina digital, mas estou chegando lá. Acho que ler livros está me ajudando a concentrar minha mente, a ter foco.
E os livros, na verdade, ainda são as mesmas coisas maravilhosas que costumavam ser. Eu posso lê-los novamente.
Os e-mails diários, no entanto, continuam sendo um problema. Se você tiver sugestões para isso, por favor me avise.
Hugh McGuire



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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O poderoso bombardeio digital que interfere em nossas atividades diárias


Escolhas: Parte 1 (xkcd)

Por que não conseguimos ler mais?

Ou, os livros podem nos salvar do que o meio digital faz com nosso cérebro?


Traduzido por Eduardo Rodrigues do original em: https://medium.com/@hughmcguire/why-can-t-we-read-anymore-503c38c131fe

No ano passado, li quatro livros.
As razões para esse baixo número são, acho eu, as mesmas razões que você teve para ler menos livros do que acha que deveria ter lido no ano anterior: Tem sido cada vez mais difícil me concentrar em palavras, frases, parágrafos. Muito menos em capítulos. Os capítulos costumam ter página após página "cheinhas" de parágrafos. É como se um espantoso número de palavras concentrassem-se em si mesmas, sem que algo mais aconteça. E uma vez terminado um capítulo, você tem que passar para outro. E, geralmente, por mais um monte deles, antes que se possa dizer terminado, e chegar ao próximo. O próximo livro. A próxima coisa. A próxima possibilidade. Próximo, próximo, próximo.

Eu sou um otimista

Ainda, sou um otimista. Na maioria das noites do ano passado fui para a cama com um livro - papel ou eletrônico - e comecei. Leitura. Leia. Lendo. Uma palavra depois da próxima. Uma frase. Duas frases.
Talvez três.
E então ... Eu precisava de "alguma coisinha" a mais. Algo para me ajudar a continuar. Algo para aliviar aquela pequena coceira no fundo da minha mente - apenas uma rápida olhada no e-mail do meu iPhone; escrever e apagar uma resposta a um tweet engraçado de William Gibson; encontrar, e seguir um link para um artigo bom, realmente bom, no New Yorker, ou melhor, a New York Review of Books (que eu poderia até ler a maior parte, se é tão bom assim). E-mail novamente, só para ter certeza.
Eu li mais outra frase. Já foram quatro frases.
Os fumantes mais otimistas sobre sua capacidade de resistir à tentação são os mais propensos a recair quatro meses depois, e os dietistas super otimistas são os menos propensos a perderem peso. (Kelly McGonigal: O instinto da força de vontade)
Lendo quatro frases por dia demora muito tempo para terminar um livro.
E é cansativo. Eu costumava dormir no meio da sentença número cinco.
Tenho notado esse padrão de comportamento há algum tempo, mas acho que a contagem de livros completos do ano passado nunca foi tão baixa antes. Desanimador, profundamente desanimador, pois minha vida profissional gira em torno de livros:comecei no LibriVox (audiobooks de domínio público gratuito) e Pressbooks (uma plataforma on-line para fazer impressão e e-books), e co-editei uma obra sobre o futuro dos livros.
Eu dediquei minha vida, de um jeito ou de outro, aos livros, acredito neles, mas não consigo lê-los.
E não estou sozinho.

Quando o pessoal da New Yorker não consegue se concentrar o suficiente para ouvir uma música inteira, como os livros sobreviveriam?

Recentemente, ouvi uma entrevista no podcast da New Yorker, o apresentador estava entrevistando o escritor e fotógrafo Teju Cole.
Entrevistador:
Um dos desafios da cultura agora é, digamos, ouvir uma música inteira, estamos todos muito distraídos. Você ainda é capaz de dar uma profunda atenção às coisas, é capaz de se envolver em cultura dessa maneira?
Teju Cole:
Sim, com certeza.
Quando ouvi isso, senti vontade de abraçar o entrevistador. Ele nem conseguia escutar uma música completa antes de se distrair. Imagine como deveria estar a sua pilha de livros de cabeceira.
Também senti vontade de abraçar Teju Cole. São pessoas como o Sr. Cole que nos dão esperança de que alguém permaneça capaz de ensinar aos nossos filhos lerem livros.

Dançando para a distração

O que era verdade com meus problemas em ler livros - o inevitável canto da sereia da mega bomba digital de novas informações - também valia para o resto da minha vida.
Minha filha de dois anos dança em recitais. Tutu rosa. Orelhas de gato presas na cabecinha dela. Juntamente com outras crianças de dois anos de idade, diante de uma multidão de 75 pais e avós, essas criancinhas fizeram um show. Já pode imaginar o resto. Você tem visto esses vídeos no Youtube, talvez até eu tenha mostrado os meus. O nível de fofura era extremo, um momento que define um determinado tipo de orgulho paterno. Minha filha nem ao menos dançou, ela apenas vagou pelo palco, olhando para a plateia com os olhos tão arregalados quanto os olhos de uma criança de dois anos interagindo com um bando de estranhos. Não importava que ela dançasse ou não, eu estava tão orgulhoso. Tirei fotos, filmei usando o meu celular.
E, em todo o caso, verifiquei meu correio eletrônico. Twitter. Nunca se sabe.
Frequentemente me vejo nesse tipo de situação - checando e-mails, Twitter ou Facebook - sem nada a ganhar, a não ser o estresse de uma mensagem relacionada ao trabalho que, de qualquer maneira, não poderia mesmo responder naquele momento.
Isso me faz sentir vagamente indigno, consultando meu celular com minha filha fazendo algo maravilhoso ao meu lado, como se eu estivesse furtando sorrateiramente um cigarro.
Ou um cachimbo de crack.
Uma vez eu estava lendo no celular enquanto minha filha mais velha, a de quatro anos, tentava falar comigo. Não ouvi muito bem o que ela havia dito, mas era um artigo sobre a Coréia do Norte. Ela agarrou meu rosto com as duas mãos, puxou-me para ela. "Olhe para mim" - ela disse - "quando estou falando com você."
E estava coberta de razão. Eu deveria sempre olhar.

Socializando com amigos ou familiares, muitas vezes sinto a vibração urgente vinda daquela barra de aço inoxidável, vidro e metais raros no meu bolso. Toque em mim. Olha para mim. Você pode encontrar algo maravilhoso.
Essa doença não se limita a quando estou tentando ler, ou durante os eventos inesquecíveis com minha filha.
No trabalho, minha concentração é constantemente quebrada: terminando de escrever um artigo (este, na verdade), respondendo à solicitação do cliente, revisando e comentando os novos designs, aprimorando a cópia no Sobre a página. Estabelecendo contatos com isso e aquilo. Impostos.
Todas essas tarefas críticas para a minha subsistência são sobrepostas, com mais frequência do que eu deveria admitir, por uma rápida olhada no Twitter (para o trabalho), ou no Facebook (também para o trabalho), ou um artigo sobre os Conjuntos de Mandelbrot (que, neste minuto, eu li).
E-mail, claro, é o pior, porque e-mail é onde o trabalho acontece, e mesmo que não seja o trabalho que você deveria fazer agora , pode ser uma tarefa mais fácil do que a atual, e isso significa que você pode acabar trocando de atividade em vez de continuar se concentrando no que estava fazendo até então. E só então voltar ao que deveria ocupar a sua atenção integral.
Dopamina e meio digital
Acontece que os dispositivos digitais e os softwares são afinados para fazer com que prestemos atenção neles, não importando o que mais devêssemos estar fazendo. O mecanismo, corroborado por recentes estudos neurocientíficos, é algo assim:
  • Novas informações criam uma onda de dopamina no cérebro, um neurotransmissor que faz você se sentir bem.
  • A promessa de novas informações compele o seu cérebro a procurar essa onda de dopamina.
Nas imagens por ressonância magnética é possível ver que os centros de prazer do cérebro se iluminam (com atividade) quando novos e-mails chegam.
Então, cada novo e-mail recebido lhe proporciona uma pequena inundação de dopamina. Cada pequena descarga da substância reforça na memória que checar o e-mail gera uma nova enxurrada. E nossos cérebros ficam programados para procurar coisas que nos darão pequenas doses dessa dopamina. Além disso, esses padrões de comportamento começam a criar caminhos neurais, para que se tornem hábitos inconscientes: trabalhe em algo importante, coceira cerebral, checar e-mail, dopamina, atualização, dopamina, checar o Twitter, dopamina, voltar ao trabalho. Mais e mais, e a cada vez o hábito se torna mais arraigado nas estruturas de nossos cérebros.
Como os livros podem competir?  (CONTINUA)


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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O que os linguistas sabem que as outras pessoas nem desconfiam?


O que os linguistas sabem que outras pessoas não sabem.

Translated from original at / Traduzido do original em:

https://ahtaitay.blogspot.com/2018/01/what-linguists-know-that-other-people_28.html?fbclid=IwAR3f2UqnubGo9IR39-BPNK1XEe9Ft38PrGk9PafWLJuMqVZXYyEYuboWnk4

Ser um linguista, ou um estudante avançado de linguística, é um privilégio sob muitos aspectos. À medida que você analisa a linguagem e a fala cotidiana, começa a perceber que há uma admirável quantidade de maravilhas nesse sistema que tomamos como certas. Os linguistas questionam o óbvio, o que é a linguagem, e obtiveram respostas que mudaram para sempre a compreensão da língua e da natureza humana. Eles também nos conscientizaram de muitas questões relacionadas à linguagem e à atitudes que mantemos em relação a ela. Neste artigo, você verá o que os linguistas sabem que não é tão evidente, ou não aceito por outras pessoas. Vamos ver o que temos
  • Todos nós falamos uma língua.

Uma das principais descobertas da linguística moderna é ter nos conscientizado de que todas as línguas que falamos são semelhantes em aspectos surpreendentes; elas manifestam o mesmo padrão, seguem as mesmas regras, são aprendidas exatamente da mesma maneira, e todas as diferenças são apenas superficiais. Então, em certo sentido, todos nós falamos a mesma língua. Isso foi capturado por Chomsky em uma excelente metáfora do ótimo livro intitulado "Linguagem e Mente"; no qual ele diz que se um cientista marciano, alguém com um tipo diferente de inteligência, estudasse as línguas do mundo, concluiria que são todas dialetos de uma única língua, incorporando uma "gramática universal", refletindo um módulo linguístico geneticamente determinado, inerentemente ligado ao cérebro humano. Uma grande quantidade de teorias, suportadas por uma enorme base de evidências oriundas de linguagens topologicamente diferentes, concordam que esse é realmente o caso. Vou mencionar, de passagem, um dos principais argumentos usados ​​para provar isso. Leve uma criança que nasceu na China, e a faça crescer na Arábia Saudita, ela crescerá falando árabe. O que isso significa? Significa que uma criança humana é programada para aprender qualquer idioma e que todas as línguas humanas, como mandarim e árabe, neste caso, são fundamentalmente as mesmas, se não fossem, a tarefa de aprender outra linguagem seria impossível. Isto tem implicações enormes, a maior das quais é que todas as 7000 línguas humanas têm a mesma fonte e que todas as línguas faladas hoje evoluíram da mesma grande-grande... grande língua ancestral, a primeira língua do homo sapiens. Outra implicação é que se um marciano passasse voando pelo nosso planeta, ele ouviria japonês e ojibwe do mesmo modo como nós ouvimos inglês britânico e americano. Esta é uma linha interessante de pensamento, se você quiser ler mais sobre isso, tenho um bom livro para recomendar. Chama-se Gramática Universal de Chomsky: Uma Introdução. Encontre-o [aqui].
  • As mudanças no idioma são naturais:

As pessoas tentam combater mudanças na linguagem e se assustam com elas. Os linguistas sabem que a mudança espontânea na linguagem não é ruim. Adotar palavras de outras línguas, perder inflexão, casos, gêneros, artigos e sons anteriormente distintos...Isso acontece em todos os idiomas e não é nada preocupante. Para um linguista, é um fenômeno interessante, e que vale a pena analisar. Para algumas pessoas é a prova do fim da linguagem, do fim da cultura civilizada e do início da morte da linguagem apropriada. Mas as línguas mudam constantemente, e certamente não é assim que morrem.

Muitas pessoas temem mudanças na linguagem. Muitos pensam que, se não tentarmos regular o modo "correto" de falar - da ortografia à pronúncia e à escolha das palavras -, todos mergulharemos na anarquia ou em algum outro infortúnio. É tudo uma farsa. A linguagem evolui constantemente, e até mesmo as elites político-culturais que afirmam usá-la "corretamente", deixam de fazê-lo; por isso que encontramos divisões de infinitivos em escritos proferidos pela Suprema Corte dos EUA, por exemplo. (E mesmo aqueles que se consideram guardiões do MODO CORRETO DE SE EXPRESSAR, não podem sequer concordar se os infinitivos divididos são legítimos). Sociedades aparecem e somem, mas não porque as pessoas começaram a dizer "né", quando deveriam ter dito "não é."
  • Não há gramáticas ruins:


Uma das coisas que você percebe ao começar a estudar idiomas é o quão estúpidas são as afirmações de que existem gramáticas ruins. Os linguistas sabem que todos os dialetos, mesmo aqueles considerados de "gramática ruim" por muitas pessoas, são tão formatados e limitados quanto qualquer outra língua. Alguém que usa o dialeto dos Apalaches ou o inglês vernáculo afro-americano (para usar dois exemplos dos EUA), não é simplesmente um ignorante das regras gramaticais ensinadas na escola, ou um orador "desleixado." Apenas seguem um conjunto diferente de regras, que são consistentes dentro de seu próprio dialeto. Às vezes, a complexidade linguística das línguas associadas a sociedades menos favorecidas, e que chamamos de gramáticas ruins, excede em muito a das sociedades modernas e privilegiadas. William Labov, de fato, analisou o inglês vernáculo afro-americano e nos mostrou a beleza dessa linguagem, de uma estrutura sofisticada e possuidora de muitos recursos inexistentes no inglês padrão. Leia mais sobre isso no próprio livro de Labov, intitulado Language in the inner city: Studies in the Black English Vernacular. Você pode obtê-lo [aqui].
  • Existem linguistas monolíngues:

Eu não sei como enfatizar isso ainda mais. Ser linguista não é igual a ser poliglota. Embora seja verdade que os linguistas estudam todas as línguas, isso não significa que se envolvam em aprendê-las. Apenas as estudam para testar certas hipóteses relacionadas ao funcionamento da linguagem. Os linguistas sabem que existem os monolíngues, alguns até desaconselham o aprendizado de idiomas. É sério, as pessoas deveriam parar de usar "linguista" e "poliglota" ou "amante da linguagem" como sinônimos. A maneira mais certa de incomodar um linguista é perguntar: "quantas línguas você fala?" Leia sobre o que os linguistas fazem [aqui].
  • A linguagem é fractal:

Os linguistas sabem que não se pode descrever totalmente qualquer uma das linguagens humanas. Parece impossível produzir regras suficientes para descrever completamente qualquer linguagem natural. Você sempre encontrará expressões válidas que as regras proíbem, e expressões inválidas que as regras permitem. (Isso é o que queremos dizer quando afirmamos : "todas as gramáticas têm furos.") É claro que você pode criar novas regras para cobrir essas exceções, mas muitas equipes passaram décadas nisso e não conseguiram tapar todos os buracos - apesar de criarem dezenas de milhares de regras. Esta é uma das razões pelas quais os linguistas têm dificuldade em levar os "prescritivistas" gramaticais a sério; sabemos que nenhuma descrição de gramática, pequena o suficiente para caber em um único volume, pode ser mais do que um conjunto de diretrizes.
  • A inserção do Fucking é sistemática:

os linguistas sabem que o processo de infixar o Fucking para enfatizar uma palavra é sistemático. Fucking sempre vai antes da sílaba tônica primária em uma palavra. Qualquer outra coisa soa errada:

fan-fucking-tàstic, e não fantà-fucking-stic

abso-fucking-lùtely, não ab-fucking-solùtely

hippo-fucking-pòtamus, não hi-fucking-ppopòtamus ou hippopò-fucking-tomus.

Phila-fuckin-delphia
e qualquer outra coisa está errada.
  • Monoglotas podem se tornar poliglotas:

Os linguistas sabem que todos que falam uma língua podem aprender as outras, caso queiram. A matemática por trás da linguística (por exemplo, a Teoria dos Autômatos e a hierarquia das línguas de Chomsky ) indicam que uma quantidade espantosa de inteligência é necessária para se tornar um monoglota. Quanto mais estudamos a linguística computacional e a teoria dos autômatos, mais compreendemos isso.

A máquina teórica mais simples que poderia analisar com precisão uma linguagem humana e mapear os significados seria incrivelmente complexa. Surpreendentemente, o grau de complexidade que se deve adicionar para analisar uma segunda língua é quase insignificante. Em outras palavras, não há diferença real na inteligência necessária para se tornar um monoglota ou poliglota.

As diferenças percebidas em termos de dificuldades têm mais a ver com a aprendizagem na fase adulta versus fase criança (durante o período crítico), e com o prazer em aprender e vontade de trabalhar.

Tenho certeza de que os linguistas sabem muito mais do que pode ser dito em um post de blog. Os linguistas mudaram nossas percepções sobre a linguagem, mudaram a maneira como consideramos as línguas das minorias e, o mais importante, os linguistas nos tornaram conscientes de que nenhuma língua é inferior. Junte-se ao movimento para reconhecer os esforços dos linguistas, assinando por e-mail e compartilhando o artigo. Muito obrigado pela leitura. Nos veremos no meu próximo artigo.

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Efeitos do bilinguismo sobre o cérebro

Bilingual Effects in the Brain / O efeito bilíngue no cérebro

Translated from original in english at:

https://www.nih.gov/news-events/nih-research-matters/bilingual-effects-brain

 Bilingual Effects in the Brain / O efeito bilíngue no cérebro

Um novo estudo descobriu que certas funções cerebrais são aprimoradas em adolescentes fluentes em mais de um idioma. A descoberta nos dá uma nova visão de como os sentidos ajudam a moldar o cérebro.

Cerca de uma em cada cinco crianças em todo o país fala uma língua diferente do inglês em casa. As crianças que crescem aprendendo a falar 2 idiomas tendem a aprender palavras inglesas e gramatica mais lentamente do que aquelas que falam apenas o inglês. Mas estudos descobriram que crianças bilíngues tendem a ser melhores em multitarefas do que crianças monolíngues. Elas também são melhores em focar a atenção - por exemplo, em determinada voz dentro de uma cafeteria barulhenta da escola.

A Dra. Nina Kraus e seus colegas da Northwestern University têm empregado eletrodos de cabeça para analisar a atividade nos circuitos cerebrais que processam sons complexos (chamada de resposta auditiva do tronco cerebral). Eles notaram que os músicos mostram vantagens de atenção e memória semelhantes às vistas em bilíngues. Em trabalhos anteriores, os pesquisadores descobriram que os músicos aprimoraram as respostas auditivas do tronco encefálico ao tempo e às harmônicas do som. Os cientistas decidiram testar se adolescentes bilíngues, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento, também mostrariam uma resposta melhorada a sons complexos.

Os pesquisadores estudaram 48 alunos do primeiro ano do ensino médio, 23 dos quais eram proficientes em espanhol e inglês. Os demais eram proficientes apenas em inglês. O estudo foi financiado pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD) Eunice Kennedy Shriver. Os resultados apareceram na edição on-line antecipada de 30 de abril de 2012 dos Anais da Academia Nacional de Ciências.

Os pesquisadores tocaram a sílaba “da” para os adolescentes, usando eletrodos para registrar a intensidade de sua resposta auditiva do tronco encefálico. Os bilíngues mostraram uma resposta maior que os monolíngues. Quando o som foi tocado em meio a um fundo ruidoso, os adolescentes monolíngues tiveram uma resposta menos intensa do que quando não havia ruídos no ambiente. Em contraste, os bilíngues mostraram respostas praticamente idênticas, com e sem a balburdia ao fundo.

Em outro experimento, os adolescentes receberam um teste de atenção seletiva no qual foram solicitados a clicar em um mouse quando o número 1, mas não o 2, fosse visto ou ouvido. O teste envolveu 500 tentativas de 1 ou 2 segundos cada, durante um período de 20 minutos. Os adolescentes bilíngues superaram os colegas monolíngues nesse teste.

Os pesquisadores, então, compararam os resultados dos dois conjuntos de experimentos. Entre os adolescentes bilíngues, a intensidade da resposta auditiva do tronco encefálico durante o teste de balburdia, correlacionou-se com os escores dos testes de atenção. Em contraste, não houve correlação entre os adolescentes monolíngues. Esses resultados sugerem que a experiência bilíngue pode ajudar a melhorar a atenção seletiva, reforçando a resposta auditiva do tronco encefálico.

“O bilinguismo serve como enriquecimento para o cérebro, e tem consequências reais quando se trata da função executiva, especificamente atenção e memória de trabalho”, diz Kraus. A equipe planeja explorar se aprender uma língua mais tarde na vida pode trazer benefícios semelhantes.

"O bilíngue manipula a informação linguística e, ao que tudo indica, automaticamente presta mais atenção aos sons relevantes versus irrelevantes", diz o membro da equipe, Dr. Viorica Marian.

“Em vez de promover a confusão linguística, o bilinguismo promove um melhor 'controle inibitório', ou a habilidade de escolher sons de fala relevantes e ignorar os outros.”

-por Harrison Wein, Ph.D.

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