terça-feira, 26 de junho de 2018

As trapaças do viés cognitivo


O viés trapaceiro da cognição

Porque pensar é trabalhoso.

                                    http://chainsawsuit.com/comic/2014/09/16/on-research/
Buster Benson
Eu sempre consulto a lista de tendências cognitivas da Wikipedia toda vez que tenho um palpite de que um certo tipo de pensamento é considerado de viés oficial, mas não consigo me lembrar do nome ou dos detalhes. Tem sido uma referência inestimável para me ajudar a identificar as falhas ocultas em meu próprio pensamento. Não encontrei ainda nada melhor que seja, ao mesmo tempo, tão abrangente e sucinto.
No entanto, honestamente, a página da Wikipedia é um pouco confusa. Apesar de tentar absorver as informações dessas páginas muitas vezes ao longo dos anos, bem pouco parece permanecer. Frequentemente faço uma varredura e sinto que não consigo encontrar exatamente aquilo que procuro, e logo esqueço o que aprendi. Acho que isso tem a ver com a forma como tais páginas evoluíram organicamente ao longo dos anos. Hoje, ela agrupa 175 vieses (ou tendências) em categorias vagas (tendências de tomada de decisão, vieses sociais, erros de memória, etc.), que realmente não me parecem mutuamente exclusivos, e os relaciona alfabeticamente em categorias. Há duplicidades em abundância, e muitas informações semelhantes com nomes diferentes, espalhadas a esmo.
Passei algum tempo nas últimas quatro semanas (estou de licença-paternidade) para tentar absorver e compreender mais profundamente essa lista, e tentar encontrar uma estrutura de organização mais simples e clara para escapar das informações inúteis. Ler mais atentamente as várias tendências de informações disponibilizadas deu ao meu cérebro algo para ruminar enquanto colocava o pequeno Louie para dormir.
Comecei com a lista bruta das 175 tendências e adicionei todas à uma planilha, depois fiz outro exame removendo duplicidades e agrupando vieses semelhantes (como efeito bizarro e efeito de humor) ou vieses complementares (como viés de otimismo e viés de pessimismo). A lista chegou à cerca de 20 estratégias mentais tendenciosas que usamos por razões muito específicas.
Fiz várias tentativas diferentes para tentar agrupar essas 20 em um nível mais alto e, eventualmente, consegui agrupá-las pelo problema mental geral que elas estavam tentando resolver. Todo viés cognitivo existe por uma razão - primeiramente para economizar tempo ou energia aos nossos cérebros. Se você olhar para eles pelo problema que estão tentando resolver, torna-se muito mais fácil entender por que existem, como são úteis e os intercâmbios (e erros mentais resultantes) que introduzem.


Quatro problemas que as tendências nos ajudam a abordar:

Sobrecarga de informação, falta de significado, necessidade de agir com rapidez e como saber o que precisa ser lembrado posteriormente.

Problema 1: Muita informação.

Há um excesso de informação no mundo, não temos escolha senão filtrar quase toda ela. Nosso cérebro usa alguns truques simples para escolher os pedaços de informação que provavelmente serão úteis de alguma forma.
  • Notamos coisas que já estão resolvidas na memória ou repetidas com frequência.

  • Bizarros / engraçados / visualmente impressionantes / coisas antropomórficas se destacam mais do que coisas não-bizarras / sem graça. Nossos cérebros tendem a aumentar a importância de coisas que são incomuns ou surpreendentes.
  • Percebemos quando algo mudou. E geralmente tendemos a pesar o significado do novo valor pela direção em que a mudança aconteceu (positiva ou negativa) mais do que reavaliar o novo valor como se tivesse sido apresentado sozinho.
  • Somos atraídos por detalhes que confirmam nossas próprias crenças. Esse é um dos grandes.
  • Notamos as falhas dos outros mais facilmente do que as nossas próprias. Sim, antes de ver esse artigo como uma lista de peculiaridades que comprometem a maneira como as outras pessoas pensam, perceba que você também está sujeito a elas
    . Ver: Ponto cego, Cinismo ingênuo, Realismo ingênuo

Problema 2: Significado insuficiente.

O mundo é muito confuso, e acabamos enxergando apenas uma pequena parte dele, mas precisamos dar-lhe algum sentido para sobrevivermos. Uma vez que recebemos um fluxo reduzido de informações, conectamos os pontos, preenchemos as lacunas com coisas que achamos que sabemos, e atualizamos nossos modelos mentais do mundo.

Problema 3: Necessidade de agir rápido.

Estamos pressionados pelo tempo e pela informação e, mesmo assim, não podemos deixar que isso nos paralise. Sem a capacidade de agir rapidamente ante o desconhecido, certamente teríamos morrido como espécie há muito tempo. Com cada pedaço de nova informação, precisamos fazer o melhor possível para estimar nossa capacidade de afetar a situação, aplicá-la à decisões, simular o futuro para prever o que pode acontecer a seguir e agir de acordo com nosso atual discernimento.

Problema 4: O que devemos lembrar?

Há demasiada informação no universo. Só podemos nos dar ao luxo de manter contato com os dados que provavelmente serão úteis no futuro. Precisamos nos arriscar em negociações entre o que devemos lembrar e o que podemos esquecer. Por exemplo, preferimos generalizações sobre especificidades porque elas ocupam menos espaço. Quando há muitos detalhes importantes, selecionamos alguns itens de destaque para salvar, descartando o resto. Salvamos o que tem maior probabilidade de prevenir nossos filtros contra a sobrecarga de informações do problema 1, bem como informar o que vem à mente durante os processos mencionados no problema 2 do preenchimento de informações incompletas. Tudo é auto-reforçador.

Ótimo, e como eu deveria lembrar de tudo isso?

Você não precisa. Mas você pode começar lembrando esses quatro problemas gigantescos com os quais nossos cérebros evoluíram para lidar nos últimos milhões de anos (e talvez adicionar esta página aos favoritos se você quiser fazer referência ocasional ao viés exato que está procurando):
  1. A sobrecarga de informação é uma droga, por isso filtramos agressivamente. O barulho se torna um sinal.
  2. A falta de significado é confusa, por isso preenchemos as lacunas. Um simples sinal se torna uma história.
  3. Precisamos  agir rápido para não perdermos a nossa chance, então tiramos conclusões precipitadas. Histórias se tornam decisões.
  4. Isso não está ficando mais fácil, por isso tentamos nos lembrar dos "bits" importantes. Decisões sinalizam nossos modelos mentais do mundo.
A fim de evitar o afogamento na sobrecarga de informação, nossos cérebros precisam revolver e filtrar quantidades insanas de dados e rapidamente, decidir quais são as poucas desse oceano que são realmente importantes e devem ser fisgadas.
A fim  de construir significado com base nos fragmentos de informação que nos chegam à atenção, precisamos preencher as lacunas e mapear tudo isso para os modelos mentais existentes. Enquanto isso, também precisamos garantir que tudo permaneça relativamente estável e o mais preciso possível.
A fim de agir rápido, em questões de segundos, nossos cérebros precisam tomar decisões que possam impactar nossas chances de sobrevivência, segurança ou sucesso, e nos tornar confiantes de que podemos fazer as coisas acontecerem.
E para continuar fazendo tudo isso da maneira mais eficiente possível, nossos cérebros precisam lembrar-se dos dados mais importantes e úteis de novas informações e informar aos outros sistemas para que possam se adaptar e melhorar ao longo do tempo, mas não mais do que isso.

Isso parece muito útil! Então, qual é o lado negativo?

Além dos quatro problemas, seria útil lembrar de quatro verdades sobre como nossas soluções para eles têm suas próprias deficiências:
  1. Nós não enxergamos tudo. Algumas das informações que filtramos são realmente úteis e importantes.
  2. Nossa busca por significado pode evocar ilusões. Às vezes imaginamos detalhes originados por nossas suposições, e então, construímos significados e histórias que não existem na realidade.
  3. Decisões rápidas podem conter grandes falhas. Algumas das reações e decisões rápidas que tomamos são injustas, egoístas e contraproducentes.
  4. Nossa memória reforça os erros. Algumas das coisas de que nos lembramos mais tarde tornam todos os sistemas acima mais tendenciosos e mais prejudiciais aos nossos processos de pensamento.
Estando consciente dos quatro problemas e das quatro consequências da estratégia do nosso cérebro para resolvê-los, a disponibilidade heurística (e, especificamente, o Fenômeno Baader-Meinhof) irá garantir que percebamos nossos próprios preconceitos com mais frequência. Se você visitar esta página para refrescar sua mente de vez em quando, o efeito de espaçamento ajudará a sublinhar alguns desses padrões de pensamento, e assim, o nosso viés cego e realismo ingênuo serão mantido sob controle.
Nada do que fazemos poderá afastar os 4 problemas (pelo menos até que tenhamos uma maneira de expandir o poder computacional e o armazenamento de memória de nossas mentes para abranger o universo), mas se aceitarmos que somos permanentemente tendenciosos, e que há espaço para melhorias, o viés de confirmação continuará a nos ajudar a encontrar evidências que apoiem isso, o que acabará nos levando a entender melhor a nós mesmos.
"Desde que aprendi sobre o viés de confirmação, consigo encontrá-lo em todo lugar!"
Vieses cognitivos são apenas ferramentas, úteis nos contextos certos, prejudiciais em outros. Eles são as únicas ferramentas que temos, e até são muito bons no que devem fazer. Devemos nos familiarizar com eles e até mesmo apreciar que, pelo menos, tenhamos alguma capacidade de processar o universo com nossos cérebros misteriosos.
Atualizando: Alguns dias depois de postar isso,  John Manoogian III perguntou se seria correto fazer uma "re-postagem em diagrama", para o qual eu naturalmente respondi SIM.  
Aqui está o que ele inventou:
Se você se sentir inclinado, pode comprar uma versão em pôster da imagem acima Aqui
Se quiser brincar com os dados no formato JSON, você poderá fazer isso Aqui.
Vou finalizar com a primeira parte deste pequeno poema de Emily Dickinson:
O Cérebro - é imenso - maior que o
   Universo
                                                                      Para que - você - 
                                                          coloque-os lado a lado, 
                                                            E - Com facilidade - 
                                                         Um o outro irá envolver -
                                                                 
https://betterhumans.coach.me/cognitive-bias-cheat-sheet-55a472476b18

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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Neurolinguística - 2/2


Afasia

O que é afasia? 
Seria a perda da linguagem após danos cerebrais igual ao inverso do processo de aprendizado? 
As pessoas que têm dificuldades em falar ou entender a linguagem por causa de danos cerebrais não são como crianças. Usar a linguagem envolve muitos tipos de conhecimentos e habilidades. As pessoas com afasia têm diferentes combinações de coisas que ainda podem fazer de maneira adulta, bem como coisas que agora fazem desajeitadamente ou não. De fato, podemos ver diferentes padrões de perfis de habilidades linguísticas poupadas e prejudicadas em diferentes pessoas com afasia.
A terapia pode ajudar uma pessoa afásica a melhorar ou recuperar habilidades perdidas, e a usar com mais eficiência as habilidades restantes. Os adultos que sofreram danos cerebrais, tornando-se afásicos, recuperam-se mais lentamente do que as crianças com o mesmo tipo de dano, porém continuam a melhorar lentamente ao longo de décadas se tiverem boa estimulação da linguagem e não forem vítimas de novos derrames ou lesões cerebrais. Para mais informações, consulte a ASHA ( http://www.asha.org/public/speech/disorders/Aphasia.htm), Associação Nacional de Afasia ( http://aphasia.org/), Afasia Esperança ( http://www.aphasiahope.org/), ou a Academia da Afasia (http://www.academyofaphasia.org/ClinicalServices/)

Dislexia e gagueira

E sobre a dislexia, e as crianças que têm dificuldade em aprender a falar, mesmo que possam ouvir normalmente? Por que as pessoas têm dificuldades de leitura? 
Pesquisas sugerem que os disléxicos têm dificuldades em processar os sons da linguagem e em relacionar a palavra impressa aos sons. Diferenças genéticas e diferenças cerebrais baseadas na genética foram encontradas em famílias com dislexia e distúrbios no desenvolvimento da linguagem, estudos  nesta área estão ajudando a entender como os genes agem na criação da “fiação” inicial do cérebro. Há evidências sólidas de que a terapia adequada baseada em linguagem é eficaz para crianças com distúrbios do desenvolvimento da leitura e da linguagem, incluindo a gagueira. O ASHA fornece informações úteis sobre esses dois distúrbios: veja http://www.asha.org/public/speech/disorders/lbld.htm.

Como as idéias neurolinguísticas evoluíram

Muitas ideias estabelecidas sobre a neurolinguística - em particular, os papéis das tradicionais "áreas de linguagem" (área de Broca, área de Wernicke) no hemisfério esquerdo do cérebro - foram questionadas e, em alguns casos, derrubadas por evidências recentes. Provavelmente as mais importantes descobertas recentes são: 1) que redes extensas envolvendo áreas distantes das áreas tradicionalmente relacionadas à linguagem estão profundamente envolvidas no uso da linguagem, 2) que as áreas de linguagem também estão envolvidas no processamento de informações não linguísticas, como alguns aspectos da música http://www.youtube.com/watch?v=ZgKFeuzGEns, 3) que as correlações de áreas específicas do cérebro com determinadas deficiências da linguagem são muito mais fracas do que se pensava. Esta nova informação tornou-se disponível devido às grandes melhorias em nossa capacidade de ver o que está acontecendo no cérebro quando as pessoas falam ou escutam, e do acúmulo e análise de muitos anos de dados detalhados de testes de afasia.

Como a pesquisa neurolinguística avançou

Por mais de cem anos, a pesquisa em neurolinguística foi quase completamente dependente do estudo da compreensão e produção de linguagem por pessoas com afasia. Esses estudos de sua capacidade de linguagem foram ampliados por informações em estado relativamente bruto sobre onde a lesão estava localizada no cérebro. Os neurologistas tiveram que deduzir essa informação, por assim dizer, considerando quais outras habilidades foram perdidas, e por informações de autópsia, que não estavam disponíveis com frequência. Alguns pacientes que estavam prestes a serem submetidos à cirurgias para aliviar epilepsia grave ou tumores podiam ser estudados por estimulação cerebral direta, quando assim necessário do ponto de vista médico, para guiar o cirurgião para longe de áreas essenciais ao uso da linguagem.
Estudos de raios X computadorizados (tomografias computadorizadas) e estudos radiográficos de fluxo sanguíneo cerebral (angiografias) começaram a ampliar os estudos experimentais e observacionais de afasia na década de 1970, mas forneceram informações brutas sobre onde a parte danificada do cérebro estava localizada. Essas primeiras técnicas de imagem cerebral só conseguiam ver quais partes do cérebro tinham sérios danos ou restringiam o fluxo sanguíneo. Não podiam dar informações sobre a atividade real que estava ocorrendo no cérebro, de modo que não puderam acompanhar o que estava acontecendo durante o processamento da linguagem em falantes normais ou afásicos. Os estudos de falantes normais nesse período analisaram principalmente qual lado do cérebro estava mais envolvido na escrita ou no processamento da linguagem falada, porque essa informação poderia ser obtida de tarefas laboratoriais envolvendo leitura ou audição em condições difíceis, como ouvir diferentes tipos de informações apresentadas aos dois ouvidos ao mesmo tempo (escuta dicótica).
Desde a década de 1990, houve uma enorme mudança no campo da neurolinguística. Com a tecnologia moderna, os pesquisadores passaram a estudar como os cérebros dos falantes normais processam a linguagem, e como um cérebro danificado processa e compensa as lesões.  Essa nova tecnologia nos permite rastrear a atividade cerebral que ocorre enquanto as pessoas estão lendo, ouvindo ou falando, e também possibilitam a obtenção de uma resolução espacial muito boa da localização das áreas danificadas do cérebro. A resolução espacial precisa vem das excelentes imagens por ressonância magnética (MRI), que mostram quais áreas do cérebro estão danificadas; a resolução das tomografias também melhorou imensamente. Acompanhar a atividade contínua do cérebro pode ser feito de várias maneiras. Para alguns propósitos, o melhor método é detectar os sinais elétricos e magnéticos que os neurônios enviam uns aos outros usando sensores fora do crânio (ressonância magnética funcional, fMRI, eletroencefalografia, EEG, magnetoencefalografia, MEG e potenciais relacionados a eventos, ERP). Outro método é observando o sinal óptico relacionado ao evento, EROS; isso envolve a detecção de mudanças rápidas na maneira como o tecido neural dispersa a luz infra-vermelha, e que pode penetrar no crânio e enxergar cerca de uma polegada cérebro adentro. Uma terceira família de métodos envolve rastrear as mudanças no fluxo de sangue para diferentes áreas do cérebro, observando as concentrações de oxigênio (BOLD) ou as mudanças na forma como o sangue absorve a luz infravermelha (espectroscopia de infravermelho próximo, NIRS). A atividade cerebral também pode ser alterada temporariamente pela estimulação magnética transcraniana (estimulação de fora do crânio, TMS), para que os pesquisadores possam ver os efeitos dessa estimulação no modo como as pessoas falam, leem e entendem a linguagem. As técnicas de NIRS, EROS, ERP e EEG são isentas de riscos, por isso podem ser usadas sem restrições de natureza ética para pesquisas em falantes normais, bem como em pessoas com afasia que não se beneficiariam particularmente por estarem em um estudo de pesquisa. TMS também parece ser seguro.
É muito complicado descobrir os detalhes de como as informações de diferentes partes do cérebro podem se combinar em tempo real, então outro tipo de avanço veio do desenvolvimento de maneiras de usar computadores para simular parcialmente o que o cérebro poderia estar fazendo durante a fala ou leitura.
Investigações de exatamente o que pessoas com afasia e outros distúrbios de linguagem podem e não podem fazer continuam a contribuir para nossa compreensão das relações entre cérebro e linguagem. Por exemplo, comparar como as pessoas com afasia realizam testes de sintaxe, combinadas com imagens detalhadas de seus cérebros, mostrou que existem diferenças individuais importantes nas partes do cérebro envolvidas no uso da gramática. Além disso, a comparação de pessoas com afasia em vários idiomas mostra que os vários tipos de afasia têm sintomas um pouco diferentes em diferentes idiomas, dependendo dos tipos de "armadilhas" que cada idioma oferece. Por exemplo, em idiomas que têm formas diferentes para pronomes masculinos e femininos ou adjetivos masculinos e femininos, pessoas com afasia podem cometer erros de gênero ao falar, mas em idiomas que não têm formas diferentes para gêneros diferentes, esse problema em particular não é encontrado.

por: Lise Menn

Agradecimentos

Muito obrigado aos membros da LSA, Sheila E. Blumstein, David Caplan, Gary Dell, Nina Dronkers e Matt Goldrick, pelo feedback e sugestões muito úteis.


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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Neurolinguística - 1/2

Lise Menn

Neurolinguística é o estudo sobre como a linguagem é representada no cérebro: ou seja, como e onde nossos cérebros armazenam o conhecimento da linguagem (ou idiomas) que falamos, entendemos, lemos e escrevemos, o que acontece ao adquirirmos esse conhecimento, e também sobre como usamos essa base em nossas vidas cotidianas. Neurolinguistas tentam responder perguntas tais como: o que acontece em nosso cérebro que torna a linguagem humana possível - por que nosso sistema de comunicação é tão elaborado e tão diferente dos de outros animais? A linguagem usa o mesmo tipo de processamento neural que outros sistemas cognitivos, como música ou matemática? Onde fica armazenada uma palavra aprendida? Como uma palavra "vem à mente" quando você precisa (e por quê às vezes não?)
Se você conhece dois idiomas, como alternar entre eles e evitar que interfiram um com o outro? Se aprendeu duas línguas desde o nascimento, qual a diferença entre o seu cérebro e o de alguém que fala apenas um idioma, e por quê? O lado esquerdo do cérebro é realmente "o lado da linguagem"? Se você perder a capacidade de falar ou ler por causa de um derrame ou outra lesão cerebral, qual será a sua capacidade para aprender a falar de novo? Que tipos de terapia são conhecidas para ajudar e que novos tipos de terapia de linguagem parecem promissoras? As pessoas que leem idiomas escritos da esquerda para a direita (como inglês ou espanhol) e pessoas que leem idiomas escritos da direita para a esquerda (como hebraico e árabe), armazenam tal habilidade em lugares distintos do cérebro? E se você ler uma linguagem escrita que usa algum outro tipo de símbolo em vez de um alfabeto, como chinês ou japonês? Sendo disléxico, de que maneira o seu cérebro é diferente do cérebro de alguém que não tem problemas para ler? E no caso dos gagos?
Como você pode ver, a neurolinguística está profundamente entrelaçada com a psicolinguística, que é o estudo das etapas do processamento da linguagem necessárias para falar e compreender palavras e sentenças, aprender a língua materna e as posteriores, e também o processamento da linguagem em distúrbios da fala, linguagem e leitura. Informações sobre esses distúrbios estão disponíveis na American Speech-Language Hearing Association (ASHA), em http://www.asha.org/public/.

Como nossos cérebros funcionam

Nossos cérebros armazenam informações em redes de células cerebrais (neurônios e células gliais). Essas redes neurais são conectadas às partes do cérebro que controlam nossos movimentos (incluindo os necessários para produzir a fala) e nossas sensações internas e externas (sons, visões, toques e aqueles que vêm de nossos próprios movimentos). As conexões dentro dessas redes podem ser fortes ou fracas, e as informações que uma célula envia podem aumentar a atividade de alguns de seus vizinhos e inibir a de outros. Cada vez que uma conexão é usada fica mais forte. Vizinhanças densamente conectadas de células cerebrais realizam cálculos que utilizam informações provenientes de outras áreas, geralmente envolvendo ciclos de retroalimentação. Muitos cálculos são realizados simultaneamente (o cérebro é um poderoso processador em paralelo de informações).
Adquirir informação ou o aprendizado de uma habilidade acontece estabelecendo novas conexões e / ou alterando os pontos fortes das conexões existentes. Essas redes locais e de longa distância de células cerebrais conectadas mostram a plasticidade http://merzenich.positscience.com/?page_id=143 - isto é, podem continuar mudando ao longo de nossas vidas, permitindo aprender e recuperar-nos (até certo ponto) de lesões cerebrais. Para pessoas com afasia http://www.asha.org/public/speech/disorders/Aphasia.htm (perda de linguagem devido a dano cerebral), dependendo da gravidade do dano, a intensa terapia e prática, talvez em combinação com a estimulação magnética transcraniana (TMS), podem trazer grandes melhorias na linguagem, assim como no controle do movimento; veja a seção "Afasia " abaixo, e os links postados lá. Métodos baseados em computador que permitem uma intensa prática de linguagem sob a supervisão de um fonoaudiólogo estão se tornando disponíveis.

Onde está a linguagem no cérebro?

Essa questão é difícil de responder, tendo em vista que a atividade cerebral é como a atividade em uma megalópole. Uma cidade é organizada para que as pessoas que nela habitem obtenham o necessário para viver, mas não se pode dizer que uma atividade complexa, como fabricar determinado produto, esteja "em um só lugar". As matérias-primas precisam chegar nos momentos certos, os subcontratantes são necessários, o produto deve ser enviado em várias direções. O mesmo acontece em nossos cérebros. Não podemos dizer que a linguagem está "concentrada" numa parte específica do cérebro. Nem é verdade que uma determinada palavra está "guardada" num lugar do cérebro de uma pessoa; a informação que vem agregada quando nós entendemos ou dizemos tal palavra chega de muitos lugares, dependendo do significado. Por exemplo, quando entendemos ou dizemos uma palavra como 'maçã', é provável que usemos informações sobre o que maçãs parecem, cheiram e têm gosto, mesmo que não tenhamos consciência disso. Portanto, ouvir, entender, falar e ler envolve atividades em muitas partes do cérebro. No entanto, algumas áreas estão mais envolvidas na linguagem do que outras.


A maioria das regiões cruciais tanto para a linguagem falada quanto para a escrita estão no lado esquerdo do córtex cerebral (o hemisfério esquerdo), independentemente da linguagem que você lê e de como seja escrita. Sabemos disso porque a afasia é quase sempre causada por lesão no hemisfério esquerdo, e não no direito, não importa qual idioma você fala ou lê, supondo que você consiga ler alguma coisa. (Isso é verdade para cerca de 95% das pessoas destras e cerca de metade das pessoas canhotas.) Uma grande parte do cérebro (a "substância branca") consiste em fibras que conectam diferentes áreas umas às outras, porque o uso da linguagem (e pensamento) requer a rápida integração de informações que são armazenadas e / ou processadas em muitas regiões diferentes daquele órgão.
Áreas no lado direito são essenciais para se comunicar de forma eficaz e para entender o que as pessoas estão dizendo. Se você é bilíngue, mas não aprendeu os dois idiomas desde o nascimento, seu hemisfério direito pode estar um pouco mais envolvido no segundo idioma do que no primeiro. Nossos cérebros são relativamente plásticos - isto é, sua organização depende tanto de nossas experiências quanto de nossa herança genética. Por exemplo, muitas das áreas “auditivas” do cérebro, que estão envolvidas com a compreensão da linguagem falada em pessoas com audição normal, são usadas para entender (visualmente) a linguagem de sinais por pessoas surdas desde o nascimento ou que se tornaram surdas cedo (e não possuem implante coclear). E os cegos usam as áreas "visuais" de seus cérebros para processar palavras escritas em Braille, mesmo que o Braille seja lido por toque. http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=the-reading-region
Os falantes bilíngues desenvolvem habilidades especiais no controle de qual idioma usar, e se é apropriado que misturem tais idiomas, dependendo de com quem estão falando. Essas habilidades podem ser úteis para outras tarefas também. http://www.nih.gov/researchmatters/may2012/05072012bilingual.htm
Continua...


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