segunda-feira, 25 de maio de 2020

O que os antigos gregos podem nos ensinar sobre a pandemia?



Sócrates e a Praga de Atenas

O que a Grécia antiga pode nos contar sobre pandemia?

[Sócrates] era tão disciplinado em seu modo de vida que quando a praga eclodiu em Atenas, foi o único homem que escapou da infecção. - Diógenes Laércio
Em 430 AC, Atenas foi devastada pela peste. Não se sabe exatamente o que a causou, mas especula-se que era uma forma de tifo, febre tifoide ou possivelmente varíola. O que ocorreu durante a praga ateniense parece prenunciar aspectos da atual pandemia do COVID-19. Nossas próprias experiências provavelmente também nos ajudam a entender melhor o que os antigos atenienses devem ter passado.  Não traçarei paralelos óbvios, apenas citarei a história e mencionarei algumas breves comparações ao longo do caminho...
A epidemia se espalhou pelas terras que cercavam o Mediterrâneo, mas Atenas, a maior e mais cosmopolita cidade da região, foi a mais atingida.  Ática, a área que circundava Atenas, tinha uma população total de aproximadamente um quarto de milhão, incluindo milhares de residentes estrangeiros e talvez cem mil escravos.  Aparentemente a doença foi trazida para o porto grego de Pireu por viajantes e comerciantes, de onde rapidamente se transformou em epidemia, infectando a população da vizinha Atenas.
Após o primeiro surto começar a ceder, os atenienses devem ter dado um suspiro coletivo de alívio.  Infelizmente, porém, aconteceram mais dois grandes surtos da praga em Atenas, em 429 e 427 AC.  No total, matou aproximadamente um terço da população, incluindo o próprio Péricles, o grande estadista e general.  Para piorar, a praga ocorreu no início da longa Guerra do Peloponeso (431 a 404 AC), na qual Atenas e seus aliados, conhecidos como Liga Delian, enfrentaram Esparta, a líder da rival, a Liga Peloponesiana.
Os espartanos e seus aliados haviam acabado de invadir Ática,  a área em torno de Atenas, quando a praga atingiu a cidade, mas não afetou a região do Peloponeso, onde Esparta se localizava. Segundo conta a história, os espartanos ocuparam Ática por 40 dias, antes de partir, possivelmente assustados com a praga que afeta Atenas.  Portanto, o efeito da praga na guerra foi unilateral.  Como veremos, o filósofo Sócrates foi pego no meio de tudo isso.

A Praga na Ilíada de Homero

Para entender a Atenas da época, deve-se recorrer aos escritos de Homero, do século VIII, parte essencial da fundação da cultura grega. Todo ateniense instruído sabia muito bem que a Ilíada começa com a história de uma terrível praga que afligia o exército grego que cercava Troia.  E do ponto de vista religioso, essa história surgiu em suas mentes quando confrontados com sua própria praga.
Homero diz que o rei grego Agamenon prendeu a filha de um dos sacerdotes troianos de Apolo, recusando-se a devolvê-la em troca de resgate.  Desesperado, o pai da menina orou a Apolo, "deus do arco de prata",  perguntando-lhe:
Se alguma vez adornei seu templo com guirlandas, ou oferendei ossos queimados em gordura de touros ou bodes, atenda à minha oração e deixe suas flechas caírem sobre os gregos para vingarem minhas lágrimas. -  A Ilíada
Ao que parece, Apolo ficou realmente zangado e enviou uma praga para punir Agamenon e o exército grego acampado nas praias de Troia.

O deus desceu furioso do Olimpo, arco e aljava no ombro, as flechas sacudindo em suas costas com a raiva que tremia dentro dele.  Sentou-se longe dos navios, o rosto escuro como a noite, e seu arco prateado espalhou a morte atirando flechas no meio dos inimigos.  Primeiro, feriu as mulas e os cães de caça; em seguida, apontou suas flechas para as pessoas, e durante todo o dia piras de mortos queimaram. -  A Ilíada

Homero escreveu que isso perdurou por dez dias antes que o herói Aquiles, reclamando, "estamos sendo derrotados pela guerra e pela peste ao mesmo tempo", consultou um vidente para saber o porquê de Apolo estar zangado e como os gregos poderiam apaziguá-lo.  A praga finalmente cedeu quando dedicaram um dia para orar, cantar hinos aos deuses e fazer sacrifícios, e devolveram a garota capturada ao pai, o sacerdote de Apolo.
A Ilíada era tão importante para os atenienses daquele tempo quanto a Bíblia é para os cristãos. Essa história que aparece logo nas primeiras linhas - era extremamente conhecida.  A Praga de Atenas foi, portanto, inevitavelmente atribuída à irritação do deus Apolo provocada pela arrogância.  Embora essa famosa passagem da Ilíada ainda pairasse em suas mentes, os atenienses logo descobriram que nenhuma quantidade de sacrifício aos deuses lhes ofereceria proteção contra a praga que agora devastava sua terra natal.

Tucídides

Nossa principal fonte de informações sobre a peste ateniense é a História da Guerra do Peloponeso , escrita pelo general ateniense Tucídides. Ele ecoa as palavras de Homero ao revelar que seus compatriotas estavam pressionados pesadamente por " guerra e  peste simultâneas ".
Tucídides estava em posição extraordinária para fornecer tal relato, pois ele próprio contraiu a praga e sobreviveu para contar a história.

Apenas definirei sua natureza e explicarei os sintomas pelos quais, talvez, possa ser reconhecido pelo aluno, se voltar a ocorrer. Isso eu posso fazer, pois eu próprio fui vítima da doença, e a observei em outras pessoas. - Tucídides

Ele afirma que a doença foi relatada pela primeira vez na África, vinda da Etiópia e, em seguida, atingiu o Egito e a Líbia.  Depois, atravessou o mar Mediterrâneo e apareceu no porto de Pireu, antes de se espalhar para a vizinha Atenas.  Tucídides a descreve como sendo a pior praga de que alguém podia se lembrar: "uma peste de tal extensão e mortalidade jamais vista em parte alguma."

Os sintomas

Tucídides diz que os médicos, não conseguindo identificar a causa da doença, não entraram em acordo sobre o diagnóstico.  Ele descreve os sintomas em detalhes, embora nem sempre de uma maneira que nos ajude a diagnosticar retrospectivamente a condição. Os sintomas começaram subitamente quando as pessoas, mesmo as de boa saúde, foram atingidas por sensações esmagadoras de calor na cabeça, vermelhidão e inflamação nos olhos.  A garganta e a língua geralmente sangravam e emitiam odor incomum e extremamente desagradável.
Esses sintomas iniciais eram seguidos de espirros e rouquidão. A dor então se espalhava para o peito e uma tosse forte se manifestava.  A doença às vezes afetava o estômago, causando transtornos e "seguiam-se descargas de bile de todos os tipos, acompanhadas de muito sofrimento."  Na maioria desses casos, seguiu-se náusea e espasmos violentos.  A duração dos sintomas não era previsível; às vezes durava pouco, às vezes perdurava por mais tempo.
A pele fica avermelhada e lívida, rompendo-se-se em pequenas pústulas e úlceras.  No entanto, o corpo não era muito quente ao toque, nem pálido na aparência. Porém, os pacientes relatavam uma sensação de queimação e muitas vezes expressavam o desejo de se despir, pois até o linho mais leve incomodava a pele.  E que ansiavam por se jogar na água fria.  Tucídides registrou que alguns dos que não foram atendidos mergulharam nos tanques de água de chuva da cidade desejosos por saciar uma sede agonizante.  No entanto, por mais que bebessem, a sensação aflitiva não os deixava.
Além disso, os afetados pela doença eram continuamente atormentados pela incapacidade de dormir ou até de descansar. Não perdiam a consciência mesmo com a febre ainda no auge.  Isso significava que as vítimas geralmente sobreviviam para serem torturadas por esses e outros sintomas desagradáveis.  Quando finalmente apagavam, geralmente por volta do sétimo ou oitavo dia, devido à inflamação interna, ainda possuíam força nos membros.  Se sobrevivessem a esse estágio, a doença aprofundava-se para o intestino, induzia ulceração violenta, levando à diarreia grave, que os enfraquecia e, por fim, matava.
Em outras palavras, segundo Tucídides, os sintomas começavam na cabeça e se espalhavam por todo o corpo.  De fato, mesmo sobrevivendo, os afetados pela praga permaneciam com danos permanentes nas extremidades.  A doença poderia atingir os órgãos genitais, dedos das mãos e pés, logo, muitos sobreviventes perdiam tais membros. Alguns também perderam a visão.  Outros, durante a recuperação, tiveram amnésia completa e não reconheciam a si mesmos ou amigos.  Tucídides também afirma que os pássaros e outros animais que se alimentaram dos cadáveres, desapareceram, e que os cães domésticos foram infectados pela praga e apresentaram sintomas amplamente semelhantes aos dos humanos.

Depressão

No entanto,  Tucídides afirma que o pior sintoma foi a profunda depressão na qual muitos foram lançados ao descobrir que tinham a doença, sentindo-se, então, desamparados e sem vontade de lutar por suas vidas  -  Algumas pessoas relataram sentir-se profundamente deprimidas após o desenvolvimento dos sintomas da COVID-19, houve registros de suicídios e problemas de saúde mental simplesmente devido ao impacto social da pandemia.

Efeito da superpopulação

No início da Guerra do Peloponeso, Péricles havia retirado suas tropas buscando a segurança das muralhas de Atenas.  Sua estratégia envolvia confiar na marinha ateniense, que era bem superior à dos inimigos.  Isso levou à migração repentina de muitas famílias da área rural de Ática, buscando, da mesma forma, proteção em Atenas.  Com a cidade se esforçando para acomodar o afluxo de refugiados e com o decréscimo da higiene pública, Atenas tornara-se um terreno fértil perfeito para doenças infecciosas.

Um agravamento da calamidade existente foi o influxo do país rumo à cidade, fato especialmente sentido pelos recém-chegados.  Como não havia casas para recebê-los, e justo na estação mais quente do ano, precisaram ser alojados em cabanas sufocantes, onde a mortalidade acabou por se alastrar.  Os corpos dos homens moribundos jaziam uns sobre os outros; criaturas semi-mortas cambaleavam pelas ruas e se reuniam em volta das fontes disponíveis, em seu desejo por água. - Tucídides

Muitos buscaram refúgio nos templos, mas tais locais também acabaram cheios de cadáveres.  -  O COVID-19 se espalhou de maneira particularmente rápida através de casas de repouso e outras residências onde indivíduos vulneráveis moram próximos uns dos outros; também se espalhou rapidamente por algumas cidades modernas densamente povoadas, como Londres e Nova York.

Tratamento

Tucídides nos diz que os médicos, a princípio, não tinham ideia do que fazer em resposta à praga e, portanto, eram de pouca ajuda para quem os procurava.  Dietas e outros tratamentos experimentados não trouxeram benefícios consistentes. Fortes e fracos foram atingidos e morreram.

Religião / Superstição

Os gregos antigos normalmente acreditavam que as pragas eram enviadas como um castigo dos deuses, como na Ilíada.  Tucídides diz que, como os médicos falharam em tratar o surto inicial, as pessoas rapidamente se voltaram para os templos em busca de orientação divina.  Isso também não ajudou em nada.  As pessoas ofereceram sacrifícios rituais aos deuses, diz ele, até que "a natureza avassaladora do desastre finalmente os deteve."  Sofredores amontoavam-se em templos, buscando ajuda, junto com refugiados sem-teto migrados do interior, mas a doença se espalhou rapidamente entre aqueles que viviam em condições apertadas, muito próximos uns dos outros.
Durante as guerras, uma catástrofe como uma praga era naturalmente vista como um sinal de que os deuses favoreciam o lado oposto, neste caso, os espartanos e seus aliados peloponésios.  Como já vimos, Apolo, o deus da cura, também era o deus das pragas. Talvez isso tenha implicações para a afirmação de Sócrates de que estava servindo ao deus Apolo, prosseguindo no estudo da filosofia.  A praga aumentou muito o medo de irritar os deuses.  A impiedade foi uma das acusações que levaram à execução de Sócrates, embora tal fato tenha ocorrido três décadas após a praga.  -  Durante as pandemias modernas, teorias da conspiração e a pseudociência florescem;  não culpamos o deus Apolo, mas procuramos outros bodes expiatórios.

Mortes dos profissionais de saúde

Como mantinham contatos próximos e frequentes com os infectados, médicos e cuidadores também foram vitimados.  Tucídides diz que um grande número de mortes ocorreu entre pessoas que pegaram a doença enquanto cuidavam de outras.  Devido à negligência muitos morreram sozinhos, porque outros tiveram medo de visitar suas casas; dentre os cuidadores que ousaram auxiliar aqueles, arriscando as próprias vidas, houve muitas mortes. Os atenienses foram, portanto, lançados em abjeto desespero, situação denominada por Tucídides como "o terrível espetáculo de homens morrendo como ovelhas".
Uma das terríveis consequências foi a morte de muitos dos melhores e mais honrados cidadãos.  Algumas almas corajosas tentaram fazer o bem e atendiam abnegadamente amigos doentes, "onde até os membros da família estavam exauridos pelos gemidos dos moribundos e sucumbiram à força do desastre."  No entanto, mesmo arriscando as próprias vidas, as perdas, geralmente era o resultado final obtido.  Com o tempo, porém, aqueles que se recuperaram da doença descobriram que podiam cuidar dos doentes sem serem infectados novamente.

Tinham passado pela experiência e agora não tinham medo; pois uma mesma pessoa nunca fora atacado duas vezes - pelo menos não de forma fatal.  E esses abnegados não apenas receberam as homenagens das demais pessoas, mas também, na alegria do momento, alimentaram a vã esperança de que estariam, no futuro, a salvo de qualquer doença. - Tucídides

Hoje, médicos e enfermeiros foram particularmente expostos ao novo coronavírus e muitos morreram enquanto tentavam administrar atendimento às outras pessoas.  É possível que, se algumas pessoas adquirem imunidade duradoura, podem encontrar-se em posição de ajudar os que sofrem.

Múltiplos Surtos

Os atenienses ficaram aliviados quando o surto inicial da praga terminou.  Infelizmente, seus problemas estavam apenas começando. Eles tiveram que enfrentar outros dois grandes surtos, o segundo dos quais vitimou Péricles, seu líder.   -  Ainda precisamos ver se o coronavírus retornará em ondas após os surtos iniciais, muito embora os epidemiologistas já alertem que isso é provável, sendo assim, a sociedade deve se preparar com antecedência.

Pânico moral / Lei e Ordem

Segundo Tucídides, o impacto da praga na sociedade ateniense levou a um colapso da lei e da ordem.  Somos informados de que, ao perceberem que suas vidas estavam em sério perigo, as pessoas começaram a desconsiderar a lei e a cometer crimes. A resposta foi a aprovação de leis draconianas numa tentativa de aumentar o controle.

À medida que o desastre passava de todos os limites, os homens, sem saber o que seria deles, tornaram-se totalmente descuidados de tudo, seja sagrado ou profano. - Tucídides

Os ritos funerários estabelecidos foram abandonados e os corpos tiveram que ser descartados com menos cuidado, por exemplo, jogados em uma pira funerária existente. Tucídides também pode estar aludindo ao uso de valas comuns, uma das quais, um poço contendo 240 corpos, foi descoberta por arqueólogos em Atenas na década de 1990.
Tucídides diz que “os homens agora não se importavam em agir às claras de forma desonrosa e sem levar em consideração o futuro.  Muitos subitamente se apossaram do dinheiro dos ricos que morreram inesperadamente.  Começaram a desperdiçar suas riquezas porque achavam que as próprias vidas poderiam terminar a qualquer momento. Ele escreve: "O medo dos deuses ou da lei do homem não eram suficientes para contê-los."  As pessoas ficaram desiludidas com a religião ao verem que muitos sofriam e morriam, quer fizessem ou não sacrifícios aos deuses.  Ninguém respeitava a lei porque ninguém esperava viver o suficiente para ser levado a julgamento e punido por seus crimes e, de qualquer forma, temiam mais a praga do que aos tribunais.  Dessa forma, começaram a viver o momento e a se comportar de forma imprudente.   -  Ainda não vimos uma grande quebra de lei e ordem, mas há alguns sinais de que a pandemia afetou o policiamento e o sistema de justiça criminal.

Sócrates e a Praga

Durante o surto inicial da peste ateniense, Sócrates, com cerca de 38 anos, aparentemente servia como hoplita, ou soldado de infantaria pesada, na Batalha de Potidaea.  Em 432 AC, os atenienses enviaram uma força para atacar a cidade rebelde de Potidaea, uma antiga aliada da qual recebiam tributos.  Sitiaram as defesas de Potidaea  por cerca de três anos; e isso foi um dos eventos que desencadearam a Guerra Peloponesiana que se seguiu.
Quando o surto inicial de peste atingiu Atenas, rapidamente se espalhou entre os soldados que estavam agora há dois anos no cerco à Potidaea.  Segundo Tucídides, as tropas acampadas em Potidaea foram infectadas com a praga por reforços vindos de Atenas.  A essa altura, os atenienses acampados próximos à cidade inimiga tiveram seus suprimentos cortados e, consequentemente, enfrentavam dificuldades consideráveis.  Sócrates, no entanto, é lembrado por sua autodisciplina e resiliência durante o cerco e a epidemia.
Durante uma intensa batalha, as linhas atenienses se romperam e suas tropas começaram a se dispersar em retirada.  Alcibíades ficou ferido, mas Sócrates o resgatou sozinho, salvando a vida de seu camarada.  Platão criou Cármides - o dia seguinte ao retorno de Sócrates de Potidaea.  Revela pouco sobre os eventos, exceto por mencionar a longa ausência de Sócrates de Atenas devido ao serviço militar e o fato de que, na viagem para casa, alguns dos amigos combatentes morreram em escaramuças.  Talvez Sócrates não quisesse falar sobre a experiência.
No "Simpósio de Platão",  no entanto, Alcibíades é retratado descrevendo como, quando serviam juntos durante a campanha de Potidaea, Sócrates entrava em transe meditativo para a surpresa de seus companheiros soldados.  Depois de contar histórias da bravura de Sócrates, Alcibíades cita a Odisseia de Homero, comparando-o ao rei de Ithaca, aventureiro e general, Odisseu.
Você deveria ouvir o que mais ele fez durante a mesma campanha:  'A exploração que nosso herói de coração forte ousou fazer'.  Um dia, ao amanhecer, começou a pensar em determinados problemas; e ficou do lado de fora, desenvolvendo o raciocínio. Mesmo não conseguindo resolver, não desistia. Simplesmente ficava lá, como que plantado no mesmo lugar.  Ao meio-dia, muitos soldados o viram e, bastante confusos, disseram a todos que Sócrates estava ali o dia inteiro pensando em alguma coisa.  E ainda estava lá quando a noite chegou e, depois do jantar, alguns trouxeram as camas para fora, onde era mais frio e confortável (tudo isso aconteceu no verão), mas principalmente para ver se Sócrates iria ficar lá durante toda a noite. E assim ele fez; ficou no mesmo local até o amanhecer!  Só saiu na manhã seguinte, quando o sol apareceu e após fazer suas orações para o novo dia. - Platão, o Simpósio
Sócrates parece ter continuado com a vida relativamente tranquila enquanto servia em Potidaea, apesar do campo ateniense ter sido gravemente afetado pela doença e ter os suprimentos cortados.  Enquanto outros entraram em pânico e lutaram para lidar com a escassez de alimentos, ele parece ter permanecido inabalável.
Xenofonte, um general ateniense e amigo pessoal de Sócrates, o retrata descrevendo como o filósofo-soldado se educou para suportar as severas privações.
Você não acredita que eu, que estou sempre me treinando para aguentar as coisas que acontecem ao meu corpo, acho tudo mais fácil de suportar do que você com sua negligência em treinar? - Memorabilia
E completa:
O que poderia ser mais útil na vida militar - o homem que não pode viver sem uma dieta cara, ou aquele que está contente com o que tem à mão? E qual deles se renderia primeiro em um cerco - aquele cujos requisitos são mais difíceis de obter, ou aquele que está satisfeito com o que quer que tenha à disposição? - Memorabilia
Hoje, o bloqueio e as outras consequências sociais do impacto são um desafio para muitas pessoas que lutam para suportar a mudança no estilo de vida.  Sócrates era um minimalista, porém, imperturbável pela privação.

Sempre pensei que não precisar de nada é divino, e precisar do mínimo possível é a abordagem mais próxima do divino; e aquilo que é divino é o melhor, e o que está mais próximo do divino vem logo a seguir. - Memorabilia

Durante o cerco de Potidaea, quando os atenienses estavam morrendo de peste e famintos por comida, Sócrates estava aparentemente bastante satisfeito, usando o tempo para praticar meditação e contemplar a filosofia.
ESCRITO POR

Donald J. Robertson

Escritor e psicoterapeuta cognitivo-comportamental. Autor de Como pensar como um imperador romano: a filosofia estoica de Marco Aurélio (2019)

Fonte: https://medium.com/stoicism-philosophy-as-a-way-of-life/socrates-and-the-plague-of-athens-9c9a04481df0
Gostou? Acha que poderia ser útil para mais alguém? Enriqueça suas redes sociais compartilhando num dos ícones abaixo (facebook, twitter).
And then? Did you like it?






segunda-feira, 27 de abril de 2020

Há relação entre extensão do vocabulário e inteligência?


A princípio, a resposta a uma pergunta tão específica é sim: à medida que você aprende determinadas palavras, presume-se estar aprendendo os conceitos relacionados à elas. 

Esses são (novamente, é algo presumível) conceitos novos para você e, dessa forma, está aprendendo novas maneiras de pensar sobre as coisas. Mas também podemos considerar um outro lado da questão: Ter um vocabulário limitado restringe o alcance do seu pensamento? 

Pense sobre a obra de George Orwell, 1984, por exemplo, e a tentativa do Grande Irmão de limitar os padrões de pensamento da classe trabalhadora reduzindo o vocabulário expressivo a "BOM", "MAISBOM", "DUPLIMAISBOM", etc. Esta é, essencialmente, a premissa da Hipótese Sapir-Whorfbaseada em evidências que mostram os falantes de uma linguagem pensando de forma diferente por não terem certas palavras à disposição. 

Pode-se escutar reportagens e novos artigos tratando disso no TeeVee e em publicações pseudo-científicas, tal como em uma história do 60 Minutes, onde uma tribo (Moken) no Pacífico Sul não dispunha da palavra "amanhã" e, portanto, não (não podia?) pensava sobre o futuro.

O fato, porém, é que tais efeitos provavelmente são exagerados. A palavra "computador" não existia, ainda assim alguém conceitualizou tal aparelho (mesmo sem a palavra). Do mesmo modo, o inglês não possui uma única palavra para "o prazer que alguém sente pelo infortúnio de outra pessoa", que, aliás, no alemão é "
schadenfreude", ainda que eu sinta genuinamente tal emoção (de forma bem real, que fique registrado). E muitas pesquisas mostrando tais especificidades do vocabulário, geralmente revelam um "efeito", ou seja, um pouco mais de lentidão ou rapidez em processar alguma coisa, e não uma habilidade nova ou a falta dela para processar algo mentalmente.

Assim, o que a pesquisa conclui é que sim, existem maneiras muito específicas nas quais o seu vocabulário influencia a velocidade ou a facilidade com que você processa as coisas. O vocabulário não é, entretanto, o "sine qua non" para o pensar e, adicionar ou subtrair palavras de uma linguagem não limita ou expande a variedade de pensamentos, mantidas iguais todas as demais variáveis.

Retornando à questão original, se tivessem lhe ensinado esses conceitos lógicos sem as palavras, seu conhecimento teria crescido da mesma forma, embora aprender tais palavras ocasione um aumento, pequeno mas mensurável, na facilidade para lidar com tais conceitos.

Colocando de outra forma, uma expansão do vocabulário não muda "como" você pensa; muda "o que" você pensa a respeito e quem você será em razão disso.

Você chegou ao fim do artigo. Obrigado pelo seu precioso tempo. Por favor, compartilhe este artigo se acreditar que outras pessoas devam ler isto. 
Tenha um bom dia.

Fonte: http://thelanguagenerds.com/can-an-increased-vocabulary-increase-our-thought-capacity/?fbclid=IwAR35JldHIkN4t39j5W1qp9soCZjQdzdD2Nqn-2A3mM8GF-UHinZVQkbywVk


Gostou? Acha que poderia ser útil para mais alguém? Enriqueça suas redes sociais compartilhando num dos ícones abaixo (facebook, twitter).








sexta-feira, 27 de março de 2020

Somos nós; os navios que colidem noite adentro! - Ben Kassoy


Somos nós; os navios que colidem noite adentro!

E para nos salvar, nada posso fazer

Editor-in-chief @dosomething and freelancer about town.


Minha lembrança

sobre você é como dinheiro numa caixa de vidro no mar: linda, intocável, distorcida, sedutora e naufraga. Ou talvez seja como o dinheiro derramado do alto de um helicóptero que sobrevoa o oceano e eu, como num show maluco de tv, me agito frenético para agarrar as notas e, desesperado, tento não me afogar.

Não posso

salvar você agora; deixo-te à mercê das minhas lembranças. Cinco semanas ou 22 meses picados e moídos, triturados com pó de caleidoscópio, misturando as proporções do passado; um narrador delirante de sensações dos limites da realidade nos meus dedos.

Em certos tempos o tempo

é um bálsamo, em outros tempos o tempo é uma arma. Usarei cada segundo para destruir você.

Eu tento

mais uma vez lembrar do teu rosto, e sinto como se fosse desenterrar uma cápsula do tempo, espanar o pó e girar em uma dúzia de círculos, e em seguida bater tudo num liquidificador para ver se ainda tem o gosto do qual me lembro. E nem faz muito sentido, eu sei, mas o fato é que o seu rosto indescritível e lindo aparece entre poltronas e bandejas de bordo, como Mufasa nas nuvens ou Jesus em uma batata frita, emergem em minha Sprite diluída, e de repente sinto seus lábios nos meus, então penso que se este avião despencasse, eu cairia pensando em você, não porque te amo, mas porque talvez eu pudesse amar e isso não teria sido conveniente?

Pensei

ter escutado a sua voz, mas não passava do eco de uma versão futura de mim mesmo, reverberando numa caverna do tamanho da galáxia.
MAS VOCÊ SENTIU A MINHA FALTA????”
Grito cada vez mais alto, repetidamente, e escuto com clareza um vazio brutal. "Silencioso como o crescimento de um câncer" e nem mesmo preciso de uma biópsia para te revelar que é o sétimo estágio.

Somos

navios que colidem noite adentro.

Coloque o tapa-olho

e balance o bastão, sem cuidado algum, me golpeie e me escancare como à verdade crua. Destrua-me e veja ao vivo o que acontece: Por vezes sou um candelabro e o vidro se espatifa no chão; noutras sou como uma piñata jorrando música e prendas e cartões de presentes.

Eu sei

que há um arco-íris no fundo da minha xícara e existe poesia além da dor.

As minhas são

mãos de zumbis exumando-se e florescendo como rosas enquanto imagino que todas as covas são como jardins.

Talvez eu

esteja me construindo como uma morada para mim mesmo. Talvez seja eu uma máquina de paz. Talvez eu seja luz infatigável e mulher vigilante. Talvez minhas entranhas sejam a caixa de Pandora do dia contrário. Talvez esteja o meu amor amontoado como tartarugas no centro da Terra. Talvez eu seja a beleza por todo o caminho.


Gostou? Acha que poderia ser útil para mais alguém? Enriqueça suas redes sociais compartilhando num dos ícones abaixo (facebook, twitter).







terça-feira, 3 de março de 2020

Ensino de tradução: a importância da língua nativa do tradutor




No processo de tradução, os estudantes frequentemente negligenciam a importância do conhecimento da sua língua materna. Ao selecionar o vocabulário apropriado, tendem a usar uma linguagem coloquial para o texto escrito. Frequentemente, também, ignoram fatores culturais; o que poderia tornar inadequadas as suas traduções. Um novo modelo de ensino, inspirado na análise de Bassnett (2002) dos anúncios de bebidas alcoólicas, foi projetado para a prática dos alunos em sala de aula. Tais alunos avaliaram seu processo de tradução usando um método multidisciplinar proposto por Newmark (1988). Os praticantes aprendem a reconhecer como a tradução funciona usando estratégias eficazes para resolver problemas de tradução. Foram investigados os problemas enfrentados pelos estudantes de Taiwan enquanto traduziam um texto do espanhol para o chinês durante um curso de tradução do primeiro ano no nível B1 da Universidade de Tamkang.

Em Taiwan, a maioria das pesquisas sobre tradução se concentrava em estudos comparativos entre textos ou nos comentários de um autor individual sobre as próprias traduções. Pouco se sabe sobre os problemas metodológicos no ensino, especialmente na área de tradução entre espanhol e chinês. De fato, a investigação dos métodos de ensino é uma questão urgente; os resultados de tal investigação contribuiriam muito para o ensino da tradução não apenas para os professores, mas também para os estudantes de Taiwan, aprendizes da língua espanhola. Este estudo discute primeiro o fato de que os alunos geralmente ignoram a importância do conhecimento de sua língua materna, e depois examina como um novo modelo de ensino pode ajudar os alunos a analisarem e avaliarem seu processo de tradução usando uma abordagem multidisciplinar proposta por Peter Newmark (1988). Esse novo modelo de ensino foi inspirado na análise de Susan Bassnett (2002) dos anúncios de bebidas alcoólicas, que será explicada em uma parte posterior deste artigo. Os estudantes enfrentam problemas de tradução não apenas linguisticamente, mas também culturalmente. No final da discussão em classe, os alunos aprenderam a reconhecer como a tradução funciona, usando estratégias eficazes para resolver problemas de tradução. O método tradicional de ensino da tradução envolve o professor dando aos alunos artigos para leitura. O professor, então, pedia aos alunos que realizassem a tradução oralmente na aula ou como tarefa de casa. O resultado é que muitos estudantes tendem a confiar excessivamente na versão do professor, em vez de confiarem em seu próprio trabalho. Geralmente, ao cometerem erros ao traduzir, perdiam boa parte da motivação para aprender. Passavam a considerar a versão do professor como o "padrão-ouro" e tentavam memorizá-la o máximo para fins de exames. Visando dar atenção ao estilo pessoal de pensamento e de escrita, seria necessário fornecer aos alunos um novo modelo de prática da tradução. O objetivo de projetar uma nova atividade orientada a tarefas seria orientar os alunos passo a passo a pensar e avaliar seu processo de tradução, empregando todas as estratégias que aprenderam em sala de aula. A Interpretação e Tradução (I) é um curso de um ano com um total de 72 horas de ensino no nível B1. Cada semestre tem 18 semanas e há uma aula de duas horas por semana. Na décima-segunda semana do primeiro semestre de 2014, selecionou-se um anúncio sobre uísque, em espanhol, para a prática de tradução dos alunos. Exigia-se que o texto fosse curto, para que o trabalho de tradução pudesse ser concluído dentro das duas horas de aula. Os alunos foram divididos em quatro grupos de quatro ou cinco e solicitados a traduzirem o anúncio para o idioma chinês. Depois de concluírem a tarefa, avaliaram tanto as próprias traduções como as dos demais alunos.


Métodos de tradução


A teoria de Newmark (1988) é recomendada por Rosa Rabadán no estágio inicial da teoria da tradução. Segundo Rabadán, Newmark é mais conhecido por sua teoria, que é uma abordagem abrangendo áreas práticas e acadêmicas (Rabadán, 2005: pp. 23-24). Segundo Newmark, existem oito métodos de tradução úteis para o ensino da tradução. A primeira categoria de métodos de tradução concentra-se no idioma de origem (SL): 1) tradução palavra a palavra, 2) tradução literal, 3) tradução fiel, 4) tradução semântica. A segunda categoria de métodos de tradução concentra-se no idioma alvo (TL): 5) adaptação, 6) tradução livre, 7) tradução idiomática, 8) tradução comunicativa (Newmark, 1988: pp. 45-47). Newmark sugere que apenas as traduções semântica e comunicativa atenderiam aos dois principais objetivos da tradução: precisão e economia. Geralmente, uma tradução semântica é escrita no nível linguístico do autor e uma tradução comunicativa no nível comunicativo do leitor (Newmark, 1988: p. 47).Comentando sobre equivalência e efeito equivalente, Jeremy Munday (2001) aponta que a descrição da tradução comunicativa é semelhante à equivalência dinâmica de Nida (1964) no efeito que está tentando criar no leitor TL, enquanto a tradução semântica se assemelha à equivalência formal de Nida. No entanto, Newmark se distancia do princípio pleno do efeito equivalente (Munday, 2001: p. 44). A equivalência formal de Nida "concentra a atenção na própria mensagem, tanto na forma quanto no conteúdo" (Nida, 1964: p. 159). E sua equivalência dinâmica é baseada no “princípio do efeito equivalente”, onde “a relação entre receptor e mensagem deve ser substancialmente a mesma que existia entre os receptores originais e a mensagem” (Nida, 1964: p. 159).Para continuar a discussão dos problemas de equivalência, Bassnett (2002, p. 29) argumenta que “a tradução exata é impossível” e prefere a teoria de “processo e produto” de Neubert (1967) (32). Segundo Bassnett, a teoria da equivalência da tradução de Neubert é considerada uma categoria semiótica que compreende três componentes: o sintático, o semântico e o pragmático. Entre eles, o componente semântico é o mais importante: “A equivalência geral resulta da relação entre os próprios signos, a relação entre signos e o que eles representam, e a relação entre signos, o que eles representam e quem os usa” (Bassnett , 2002: p. 34). Este estudo de “signos” ou semiótica é de grande valia para futuras pesquisas na tradução entre espanhol e chinês. Embora a análise de Bassnett (2002) aborde principalmente o uso do inglês, o conceito de decodificação e recodificação é aplicável ao uso do chinês. Vale a pena prestar atenção ao que ela sugere ao tradutor que deve: 1) Aceitar a intraduzibilidade da frase SL no TL [no] nível linguístico.2) Aceitar a falta de uma convenção cultural semelhante no TL.3) Considerar o leque de frases TL disponíveis, [no que diz respeito] à apresentação de classe, status, idade, sexo do falante, sua relação com os ouvintes e o contexto de sua reunião no SL.4) Considerar o significado da frase em seu contexto particular - isto é, como um momento de alta tensão no texto dramático.5) Substituir no TL o núcleo invariável da frase SL nos seus dois sistemas referenciais (o sistema particular do texto e o sistema de cultura do qual o texto surgiu) (2002, pp. 29-30).Bassnett (2002) argumenta que é imoral contratar ou omitir expressões difíceis nas traduções. Bassnett também acredita que a visão funcional deve ser adotada no que diz respeito não apenas ao significado, mas também ao estilo e forma, e sugere que o tradutor não pode ser o autor do texto do SL; antes, como autor do texto da TL, o tradutor tem uma clara responsabilidade moral para com os leitores da TL (30).Após a apresentação de alguns importantes trabalhos teóricos acima, deve-se notar que o objetivo do uso dos métodos de ensino de Newmark (1988) é ajudar os estudantes de Taiwan a entender a essência da tradução, para que eles não sejam traduzidos pela memória, mas pela aplicação de métodos de tradução. As técnicas sofisticadas usadas na prática por especialistas em tradução são de importância secundária neste curso. Como os alunos estão no estágio inicial do aprendizado de tradução, sugere-se que os professores orientem seus alunos através de exemplos práticos com tópicos relacionados à sua vida cotidiana.

Os estudantes de Taiwan estão sem paciência para a leitura e a escrita? 

Ao que parece, não gostam de fazer perguntas durante as aulas. Quando são questionados, geralmente dão de ombros e dizem: "Eu não sei". A impressão é que seria necessário um esforço significativo para despertá-los e fazer com que pensem para responder à pergunta. Ao traduzir, parece que seu único desejo é uma solução rápida, sem um investimento mais cuidadoso no pensamento. Durante os exames, a maioria dos estudantes entrega seus trabalhos imediatamente após a conclusão. Pouquíssimos alunos ficam na sala de aula para verificarem suas respostas. Uma explicação possível para a baixa proficiência dos estudantes universitários de Taiwan em leitura e escrita em chinês é o tempo excessivo que passam em seus telefones celulares ou navegando na Internet todos os dias. Segundo Ramos (2012), o uso frequente da Internet tornou a concentração uma tarefa difícil para os estudantes de Taiwan (247). Os estudantes de Taiwan tendem a navegar na Internet não para ler artigos, mas para assistir a filmes e se comunicar com os amigos usando muito o recurso oral. Newmark explica que os alunos tradutores ignoram facilmente o fator de leitura do texto: O texto médio para tradução tende a ser para um público educado e de classe média em um estilo informal, não coloquial. A variedade mais comum de erro "marcado" no registro entre os alunos tradutores tende a ser "coloquial" e "íntima", por exemplo, uso de frases como "mais e mais" para "cada vez mais"... O outro erro comum, uso de registro formal ou oficial (por exemplo, "falecimento" para "morte"), também mostra sinais de tradução amadora. Esses sinais de linguagem tipificam os alunos tradutores que não atentam para o público-alvo de suas traduções; e podem indicar o grau de conhecimento, o interesse no assunto e na cultura apropriada, ou seja, como estão motivados. Tudo isso o ajudará a decidir sobre o grau de formalidade, generalidade (ou especificidade) e tom emocional que você deve expressar ao trabalhar no texto (1988, p. 13).No processo de tradução, os alunos geralmente negligenciam a importância do conhecimento de sua língua nativa. Os alunos também costumam ignorar fatores culturais; o que tornaria sua tradução inadequada. Os estudantes tradutores precisam considerar cuidadosamente o estilo do idioma escolhido e levar em consideração fatores culturais específicos. Bassnett (2002) sugere a importância dos elementos culturais na tradução: a linguagem, portanto, é o coração no corpo da cultura e é a interação entre as duas que resulta na continuação da energia da vida. Do mesmo modo que o cirurgião, operando um coração, não pode negligenciar o corpo que envolve o órgão; o tradutor não deve tratar o texto isoladamente da cultura (2002, p. 22).


 Estudo de Caso


Esse novo modelo de ensino foi inspirado na análise de Susan Bassnett (2002) de dois anúncios, um para o uísque escocês e outro para o Martini. Em um jornal britânico de domingo, a propaganda de uísque representava qualidade, pureza e status social, enquanto a propaganda de Martini representava glamour, emoção, estilo de vida moderno e juventude. No entanto, em uma revista semanal italiana que anunciava os mesmos dois produtos, o Martini foi representado como um produto tradicional e o Scotch como uma novidade, de modo que as imagens apresentadas com os produtos eram exatamente o contrário do anúncio britânico (Bassnett, 2002 : p. 35). Adotei a ideia de que um anúncio de bebidas alcoólicas poderia ter diferentes significados culturais em diferentes culturas. Portanto, traduzir um anúncio de uísque, do espanhol para o chinês, seria interessante e desafiador para os meus alunos como um novo modelo de ensino. Para a tarefa, os alunos foram solicitados a traduzir o anúncio do uísque em espanhol para o chinês durante a aula (acessado em 30 de outubro de 2014: http://todowhisky.blogspot.com/ 2008/12 / publicidades- de- Whisky-chivas- regal- 12). html). O anúncio era um material de ensino ideal para esta tarefa, devido ao comprimento e à densidade do estilo de escrita. Esperava-se que os estudantes empregassem todas as estratégias de tradução que aprenderam em sala de aula, incluindo os oito métodos de tradução propostos por Newmark (1988).


Uma atividade orientada à tarefas


Esse exercício de tradução de anúncios constitui-se em uma atividade orientada a tarefas. Um método chamado Ensino de Idiomas Baseado em Tarefas (TBLT) foi originalmente criado por Prabhu para ensinar inglês como um segundo idioma em Bangalore, no sul da Índia (conforme citado em Candlin, 1987). De acordo com D. Li (2013), essa abordagem provou ser um método eficaz para o ensino de uma língua estrangeira: A premissa inicial é que os alunos aprendam mais efetivamente quando suas mentes estão focadas na tarefa que estão tentando concluir do que na língua que estão aprendendo. Nessa abordagem o foco é colocado nos alunos, no processo de aprendizado, na prática reflexiva do aprendizado e no uso de tarefas autênticas do mundo real (Li, 2013: p. 7).O processo dessa abordagem orientada a tarefas consistiu em seis etapas de ensino: pré-tarefa, tarefa, relatório, análise, revisão e reflexão (2013, p. 8). A atividade de tradução que eu projetei atendeu aos requisitos de D. Li em relação à filosofia do TBLT: 1) O foco está no aluno e no professor.2) Os alunos constroem seus próprios conhecimentos através da experiência e reflexão.3) O foco está mais no aprendizado do que no ensino; a ênfase é colocada no desenvolvimento das habilidades críticas e de resolução de problemas dos alunos.4) Os alunos interagem com os colegas e com o professor.5) O professor atua como um facilitador.6) Os alunos aprendem (constroem conhecimento) por meio de interações com colegas, professor e materiais.7) Os alunos assumem a responsabilidade por seu aprendizado, o que leva a um maior senso de propriedade e a uma maior motivação sobre o aprendizado.8) Materiais e contextos autênticos (ou simulados) são adotados no ensino.Li, 2013: p. 3).Deve-se notar que, como professor, eu não forneci minha própria versão da tradução para os alunos. Isso foi para que os alunos se sentissem livres para criar o próprio trabalho. No entanto, os alunos poderiam me consultar sobre o significado de uma palavra ou uma interpretação do texto se tivessem alguma dúvida. A vantagem era que os alunos não seriam influenciados pelo outro autoral, ou seja, pelo professor. Além disso, os alunos precisariam resolver sozinhos os problemas que surgem no processo de tradução.

(...)

Conclusão

Este estudo de caso de tradução de anúncios demonstrou que os alunos tradutores foram capazes de aprender a importância da leitura e escrita em chinês no processo de tradução. Além disso, experimentaram as vantagens de empregar métodos de tradução e estratégias de tradução para chegar a um resul ideal. Agora, eles prestam atenção não apenas à forma, mas também ao estilo do idioma ao traduzir. Mais importante, os alunos aprenderam a levar em consideração os elementos culturais ao tomar decisões no processo de tradução. A aplicação dos oito métodos de tradução da Newmark provou ser útil para os estudantes tradutores resolverem problemas de tradução. Os alunos encontraram não apenas confiança, mas também interesse no mundo da tradução.


Fonte: https://www.scirp.org/journal/paperinformation.aspx?paperid=68629

Gostou? Acha que poderia ser útil para mais alguém? Enriqueça suas redes sociais compartilhando num dos ícones abaixo (facebook, twitter).