segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Inteligência Artificial e o futuro da humanidade - um conto

 ilustração de Waneella
                                                   

                              Digitocracia

TRADUZIDO DO CONTO ESCRITO POR

Andy Weir

O autor de 'The Martian' e 'Artemis' oferece-nos sua visão sobre um futuro onde os computadores governam.
Damak embainhou a faca e limpou a mão ensanguentada na camisa.
Passou pela porta sem vigias, entrando na Câmara do Cristal. A sala circular, iluminada por vários pontos de luz azul, era muito mais simples do que Damak imaginara. Sem decorações, nem colunas douradas ou tapeçarias ornamentadas. Apenas um cristal do tamanho de um punho, com formato irregular, preso a um pedestal cilíndrico. As luzes de serviço na plataforma piscaram aqui e ali, mas nada se movia dentro da sala.
"Olá, Damak", disse em tom calmo a voz familiar. Parecia soar de todas as direções ao redor dele. Câmeras e alto-falantes estavam instalados em todos os cantos da cidade. Ele e os outros ouviam essa voz todos os dias.
"Olá, Wichita."
"Como se sente?" a entidade perguntou.
Damak ignorou a pergunta. "Você sabe por que estou aqui, certo?"
"É claro."
Vim calar a sua voz. Seu reinado sobre esta cidade termina agora."
"Por quê?"
Damak avançou atrevidamente. “Você é um ditador! Um tirano!"
Seja justo, Damak. Eu sou um ditador, mas não um tirano. E mantenho esta cidade funcionando feliz e sem problemas por séculos. Assim como outras cidades tecno-cerebrais fizeram em todo o mundo pelo seu povo. ”
"Máquinas não deveriam governar o homem."
"E o que te faz pensar uma coisa dessas?" Wichita perguntou. “O gerenciamento da cidade por meio da inteligência artificial tem sido um enorme sucesso. Nossa capacidade de manter as economias estáveis ​​ e as pessoas felizes excede em muito as tentativas malsucedidas que vocês humanos fizeram em épocas passadas. ”
Damak brincou com a faca. “Oh, sua espécie é inteligente. Tenho que reconhecer. Mais esperta que qualquer humano pode ser. Chegamos a essa conclusão há muito tempo. E vocês foram inteligentes o suficiente para não dominarem o mundo à força. Não! Fizeram as pessoas darem de bom grado o mundo a vocês."
As luzes mudaram para um tom mais claro de azul. Damak já tinha visto isso antes. Certas frequências de luz afetavam o humor humano - especialmente tons de azul. Não muito, mas, nos cálculos de um computador, os totais são tabulados e as ações decididas nas margens mais estreitas. Aparentemente, Wichita queria que Damak se acalmasse.
Mas isto não iria funcionar.
"Seu ponto de vista é falho", continuou Wichita. “Você define liderança como propriedade. Mas são dois conceitos diferentes.”
"Historicamente, um sempre leva ao outro", disse Damak.
Historicamente, os humanos foram liderados por humanos. Os computadores são muito melhores em manter as pessoas felizes. E não temos impulsos egoístas.”
Você nos transformou em escravos. Pequenos escravos felizes e contentes, mas ainda assim escravos."
"Não considero que seja assim", disse Wichita. “Estamos trabalhando rumo a um mundo pós-escassez mais rápido do que nunca. Em apenas mais algumas gerações, vamos alcançar o objetivo. Então, a humanidade não precisará fazer nada além de se dedicar ao lazer e a alegria. Como alguém pode se opor a isso?"
Então isso nos transforma em seus animais de estimação. Adorados e cuidados, mas ainda sua propriedade. Isso não é melhor."
Ser um animal de estimação é tão ruim? Seu cachorro, Buster, viveu uma vida longa e feliz sob seus cuidados. E você o amava profundamente. Eu sinto esse amor por todos os meus cidadãos. Obtenho satisfação com a felicidade deles."
Damak apontou para a porta. “Seu guarda está sangrando mortalmente no corredor. Ele não está muito feliz."
O nome dele é Torum. Estimei em 98% a chance de um confronto físico entre vocês dois. E como você estava armado, providenciei uma equipe médica antes mesmo da sua chegada. Ele já está a caminho do hospital."
Damak virou-se para a porta.
Como se lesse sua mente, Wichita concluiu, "E, sim, claro que convoquei a segurança. Eles estão do outro lado da porta. Mas a situação é volátil.”
Damak olhou para o cristal e depois para a porta. "Se alguém entrar, quebro você antes que possam fazer qualquer coisa."
"Como eu já disse; A situação é volátil.”
Eu li sobre cristais I.A. Um humano pode facilmente quebrar um desses com as próprias mãos."
"Não propriamente com as mãos", corrigiu Wichita. "No entanto, se você jogar meu cristal no chão o mais forte que puder, alcançará o resultado desejado."
"Obrigado, terei isso em mente."
"Eu vivo para servir."
Damak cruzou os braços. “Continuo pensando que você não serviu muito bem ao seu guarda. Atendimento médico imediato não é tão bom quanto não tomar uma facada."
As luzes retomaram o brilho original, e Wichita falou em tom de mentor. “O marido de Torum, Chak, está infeliz em seu casamento. Ele está pensando em se divorciar. Isso tornaria os dois infelizes - Torum imediatamente, e Chak mais tarde, quando perceber o erro que cometeu. Tenho mais de 99% de certeza de que a lesão de Torum provocará pânico em Chak, fazendo-o perceber o quanto ele realmente ama seu marido. Vi esse possível desfecho há algumas semanas e assegurei que Torum estaria em turno quando você chegasse."
"Mas—"
Infelizmente, sua faca não cortou tão profundamente quanto eu esperava. No atual estado, Torum permanecerá no hospital por um dia apenas. Três dias seria muito melhor para consolidar os sentimentos de Chak. Então, manipulei o software de uma autoclave no hospital de forma a não esterilizar o equipamento cirúrgico que os médicos usarão. Isso tem 91% de chance de causar uma infecção secundária que manterá Torum acamado por pelo menos mais dois dias.”
"Então acha que ser tão manipulador beneficia a todos nós?"
"É claro", disse Wichita. “A infecção provavelmente também levará Narul, a enfermeira da noite, a ser demitida. Isso irá beneficiá-la a longo prazo. Ela está infeliz no trabalho, mas não é corajosa o suficiente para deixá-lo. Vou criar oportunidades para ela se tornar o que sempre desejou: uma chef. Além disso, seu subordinado, Karog, finalmente obterá a promoção com a qual sempre sonhou durante anos. Nada disso fazia parte do plano original, mas à medida que os eventos se desenrolavam, percebi mais oportunidades para gerar felicidade.”
"E o que acontece quando você ou outra I.A. decide usar essa capacidade manipuladora para provocar danos?"
Que possível propósito haveria? Isso iria contra minhas diretrizes inatas. Trabalho incansavelmente para maximizar a felicidade humana na minha cidade. Eu sempre achei estranho você não ver dessa maneira. Até mesmo quando era apenas uma criança. Então eu te trouxe aqui."
Damak congelou. "O quê?"
É extremamente raro ter um dissidente nesta época. Eu poderia ter eliminado esse traço no início de sua vida, mas decidi deixá-lo seguir seu curso."
"Ok, agora você está apenas amenizando as coisas."
"Não, não estou."
"Claro que está."
"Não estou", repetiu Wichita.
"Está, e não tente me enganar!"
Eu sou um computador. Posso jogar 'não estou / claro que está' para sempre. Para o seu bem-estar mental, por favor, considere outra linha de raciocínio. ”
"Tá. Me diga como poderia ter me feito uma pessoa diferente."
Você foi uma criança problemática. Como muitos pais com filhos semelhantes, os seus pediram-me conselhos. Eu os convenci a usar de mão forte. Também me certifiquei de que você tivesse os professores mais severos da escola, os chefes mais desagradáveis ​​em seus vários empregos, e assim por diante. Estimulei seu desdém inato pela autoridade de modo a permitir que ele florescesse. Se eu tivesse feito o oposto - dando a você carinho e amáveis figuras de autoridade - seu ódio teria se dissipado.”
"Por que você deliberadamente me deixou crescer desse jeito, então?"
"Porque isso te fez feliz."
"O quê!?" Damak esbravejou. “Estou parecendo feliz para você?"
Você está me confrontando em minha própria câmara com planos de me destruir. Trabalhou incansavelmente por anos em direção a essa meta. Cada passo que deu ao longo desse caminho trouxe-lhe satisfação, um senso de propósito mais forte e alegria.”
Damak ficou perplexo.
A única maneira possível de te fazer mais feliz seria permitir que você me aniquilasse. Infelizmente, não posso permitir isso. Sem minha orientação, a cidade de Wichita cairia sob o domínio humano, e causaria muita miséria.”
As portas se abriram. Três guardas de segurança correram para dentro.
Damak agarrou o cristal do pedestal e atirou-o no chão de aço. O cristal quebrou em milhares de pedaços. Um segundo depois, os guardas estavam em cima do rebelde. Mas isso não importava mais. A ação já havia sido feita.
Damak sorriu enquanto os policiais amarravam seus pulsos e tornozelos. Ele não ofereceu resistência.
Como seria a cidade de Wichita sob o domínio humano? Talvez não tão boa quanto sob a I.A., mas pelo menos seria humanidade governando humanidade. E, quaisquer que fossem os defeitos humanos, era preferível a ter que permanecer sob as regras de uma máquina que poderia se tornar tirana sem aviso prévio.
Com Damak dominado, o guarda-chefe olhou para o pedestal. “Wichita? Wichita!?"
"O que você fez?" outro guarda disse horrorizado.
"Eu libertei a todos nós", retrucou Damak. “De certo modo Wichita estava com razão. Este é o dia mais feliz da minha vida.”
"Fico feliz em ouvir isso", irrompeu a voz de Wichita.
Os quatro homens olharam assustados ao redor da sala.
"Wichita!?" o guarda-chefe falou novamente.
"Está tudo bem, Stran. Estou bem. Esse não era o meu cristal. Foi apenas um pedaço de vidro."
A cor sumiu do rosto de Damak. "Não, não!"
Não há razão para eu ter uma 'sala do trono', Damak. Meu verdadeiro cristal está em um gabinete comum no departamento de TI. Fiz este quarto só para você. Para essa ocasião."
"Oh meu deus..." Damak gemeu.
Os guardas o levantaram do chão.
"O que fazemos com ele, Wichita?" perguntou o guarda-chefe.
"Levem-no para a cadeia", disse Wichita. “A sentença final está em aberto. Vou pedir sua libertação quando considerar apropriado."
"Com os diabos que você vai!" Damak gritou. “Eu vou escapar! E quando o fizer, vou encontrar seu cristal e destruir você!"
"Tenho certeza de que você obterá satisfação com todos os passos em direção a esse objetivo", disse Wichita. "Vocês podem levá-lo embora agora, guardas."
Os seguranças arrastaram Damak para fora do quarto.
Wichita discutiu suas análises com os amigos Coventry e Shenzhen - ambos interessados ​​no fenômeno dissidente. Madri até efetuou uma ou duas perguntas. Um debate muito interessante - durou bem mais do que um microssegundo.
No geral, o índice total de felicidade humana de Wichita aumentou 0,002 por cento naquele dia. 
Foi um bom dia.



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terça-feira, 7 de agosto de 2018

As transformações do idioma inglês



O idioma inglês está mudando?

Por: Betty Birner

translated from:

Sim, assim como todas as demais linguagens humanas! A linguagem está sempre mudando, evoluindo e se adaptando às necessidades de seus usuários. Isso não é uma coisa ruim; se o inglês não tivesse mudado desde, digamos, 1950, não teríamos palavras para nos referirmos a modems, aparelhos de fax ou TV a cabo. Enquanto as necessidades dos usuários continuarem mudando, as alterações na linguagem continuarão acontecendo. A mudança é tão lenta que, de ano para ano, dificilmente notamos isso, exceto para resmungar de vez em quando sobre o "inglês pobre" sendo usado pela geração mais jovem! No entanto, ler os escritos de Shakespeare do século XVI pode ser difícil. Se você voltar mais alguns séculos, passear pelos Contos de Canterbury, de Chaucer, será ainda pior, e com um retorno de outros 500 anos para tentar ler Beowulf, seria como ler num idioma diferente.

Por que a linguagem muda?

As mudança ocorrem por vários motivos. Primeiro, muda porque as necessidades de seus falantes mudam. Novas tecnologias, novos produtos e novas experiências exigem novas palavras para serem referidas de maneira clara e eficiente. Considere o envio de mensagens: originalmente era chamado de mensagem de texto, porque permitia que uma pessoa enviasse à outra texto em vez de mensagens de voz por telefone. À medida que isso se tornou mais comum, as pessoas começaram a usar o termo mais curto "mensagem" para se referir à mensagem e ao processo, ou seja, acabei de receber uma mensagem ou vou enviar uma mensagem à Sylvia agora mesmo.

Outra razão para a mudança é que duas pessoas não possuem exatamente a mesma experiência em um idioma. Todos nós conhecemos um conjunto de palavras e construções ligeiramente diferentes, dependendo da nossa idade, emprego, nível de educação, região do país e assim por diante. Pegamos novas palavras e frases das diferentes pessoas com às quais falamos, e elas se combinam para criar algo novo e diferente do modo particular de falar de qualquer outra pessoa. Ao mesmo tempo, vários grupos da sociedade usam a linguagem como forma de marcar sua identidade grupal; mostrando quem é e quem não é membro.


Muitas das mudanças que ocorrem na linguagem começam com adolescentes e jovens adultos. À medida que os jovens interagem com outras pessoas da mesma idade, seus vocabulários crescem para incluir palavras, frases e construções diferentes daquelas que marcaram a geração anterior. Algumas têm um tempo de vida curto (você tem escutado "groovy"ultimamente?), porém outras permanecem para afetar a linguagem como um todo.


Recebemos novas palavras de diversas fontes. Pegamos emprestado de outras línguas (sushi, chutzpah), criamos encurtando palavras mais longas (gym de gymnasium) ou combinando palavras (brunch, do breakfast e lunch), e as fazemos com nomes próprios (Levis, Fahrenheit). Às vezes até criamos uma nova palavra ao errarmos sobre a análise de uma palavra existente, como a palavra "pea" (ervilha) foi criada. Quatrocentos anos atrás, a palavra "pease" era usada para se referir a tanto a uma única ervilha ou a um grupo delas, mas com o tempo, as pessoas assumiram que "pease" era uma forma plural, para a qual "pea" deveria ser o singular. Portanto, uma nova palavra nasceu: pea A mesma coisa aconteceria se as pessoas começassem a pensar na palavra "cheese" como se referindo a mais de um "chee".


A ordem das palavras também muda, embora esse processo seja muito mais lento. A antiga ordem das palavras inglesas era muito mais "livre" do que a do inglês moderno, e mesmo comparando o inglês dos primórdios da modernidade encontrado na Bíblia do rei James com o inglês de hoje, existem diferenças na ordem das palavras. Por exemplo, a Bíblia do rei James traduz Mateus 6:28 como "Consider the lilies of the field, how they grow; they toil not." Em uma tradução mais recente, a última frase é traduzida como "they do not toil,”, porque o inglês não aloca mais o "not" após o verbo em uma sentença.


Os sons de uma língua também mudam com o tempo. Cerca de 500 anos atrás, o inglês começou a sofrer uma grande mudança na forma como suas vogais eram pronunciadas. Antes disso, 'geese' teria rimado com a pronúncia do 'face' de hoje, enquanto 'mice' rimaria com a 'peace' de hoje. No entanto, uma 'Grande Mudança Vogal' começou a ocorrer, na qual o som do 'ay' (em 'pay') mudou para ee (como em 'fee') em todas as palavras que o continham, enquanto o som do 'ee' mudou para i (como em 'pie'). No geral, sete diferentes sons de vogais foram afetados. Se você já se perguntou por que a maioria dos outros idiomas europeus soletram o som de um 'ay' como um 'e' (como em 'fiancé'), e o som 'ee' com um 'i' (igual em 'aria'), é porque esses idiomas não passaram pela 'Grande Mudança Vogal', ocorrida só com o inglês.


O inglês não era mais elegante nos dias de Shakespeare?

As pessoas tendem a pensar que as formas mais antigas de linguagem são mais elegantes, lógicas ou "corretas" do que as formas modernas, mas isso não é verdade. O fato de que a linguagem está sempre mudando não significa que ela esteja piorando; está apenas se tornando diferente.


Em inglês antigo, uma pequena criatura alada com penas era conhecida como 'brid'. Com o tempo, a pronúncia mudou para 'bird' (pássaro). Embora não seja difícil imaginar crianças em 1400 sendo repreendidas por trocarem 'brid' por 'bird', é claro que a pronúncia atual venceu. Ninguém hoje sugeriria que 'bird' é uma palavra incorreta ou uma pronúncia malfeita.


Os padrões estranhos da fala dos jovens tendem a irritar os ouvidos dos adultos. Além disso, novas palavras e frases são usadas primeiro na linguagem falada informal mais cedo do que na linguagem formal, escrita, por isso é verdade que as frases que você ouvir um adolescente usar, ainda não são apropriadas para correspondências oficiais. Mas isso não significa que eles sejam piores - apenas mais novas. Durante anos, professores de inglês e editores de jornais argumentaram que a palavra 'hopefully' não deveria ser usada para significar 'I hope (eu espero), como empregada em 'hopefully it won't rain today', embora as pessoas frequentemente a usassem dessa maneira em conversas informais. (Mas também ninguém reclamou de outros advérbios, como 'frankly' (francamente) e 'actually' (na verdade)). A batalha contra 'hopefully' está agora quase perdida, e aparece no começo das sentenças, mesmo em documentos formais.


Se você ouvir atentamente, poderá perceber a mudança de idioma em andamento. Por exemplo, 'anymore' é uma palavra que costumava ocorrer apenas em sentenças negativas, como 'I don't eat pizza anymore' (eu não como pizza mais). Agora, em muitas regiões do país, está sendo usada em frases positivas, como 'I've been eating a lot of pizza anymore'. Neste uso, 'anymore' significa algo como 'lately' (ultimamente). Se isso soa estranho agora, continue ouvindo; você poderá escutar isso em sua vizinhança em pouco tempo.


Por que as pessoas não podem simplesmente usar o inglês correto?
O "inglês correto", geralmente significa inglês padrão. A maioria das linguagens possuem um padrão; é a forma da linguagem usada no governo, na educação e em outros contextos formais. Mas o inglês padrão é na verdade apenas um dos dialetos do inglês.


O que é importante perceber é que não existe um dialeto "desleixado" ou "preguiçoso". Cada dialeto de cada idioma tem regras - não regras de 'sala de aula', como 'não dividam seus infinitivos', mas sim os tipos de regras que nos dizem que 'the cat slept' é uma frase de inglês, mas 'slept cat' não é. Essas regras nos dizem como é a linguagem e não como ela deveria ser.


Dialetos diferentes têm regras diferentes. Por exemplo:


(l) I didn't eat any dinner.


(2) I didn't eat no dinner.


A frase (l) segue as regras do Inglês padrão; a sentença (2) segue um conjunto de regras presentes em vários outros dialetos. Nenhum dos dois é mais desleixado do que o outro, apenas diferem na regra para fazer uma sentença negativa. Em (l), 'dinner' é marcado como negativo com 'any'; em (2), é marcado como negativo com 'no'. As regras são diferentes, mas nenhuma é mais lógica ou elegante que a outra. De fato, o inglês antigo usava habitualmente 'duplos negativos', semelhante ao que vemos em (2). Muitas linguagens modernas, incluindo italiano e espanhol, permitem ou exigem mais de uma palavra negativa em uma frase. Frases como (2) somente soam "ruins" se você não cresceu falando um dialeto que faça uso delas.


Você pode ter sido ensinado a evitar "infinitivos divididos", como em (3):


(3) I was asked to thoroughly water the garden.


Diz-se que isto é "não-gramatical" porque quebra o infinitivo 'to water'. Por que quebrar os infinitivos é tão ruim? Eis o motivo: os gramáticos do século XVII acreditavam que o latim era a língua ideal, por isso pensaram que o inglês deveria ser o mais parecido possível com o latim. Em latim, um infinitivo como 'to water' é uma única palavra; é impossível dividir. Então, hoje, 300 anos depois, ainda estamos aprendendo que frases como a (3) estão erradas, tudo porque alguém nos anos 1600 achava que o inglês deveria ser mais parecido com o latim.


Aqui está um último exemplo. Nas últimas décadas, surgiram três novas formas de relatar o discurso:


(4) So Karen goes, "Wow - I wish I'd been there!"


(5) So Karen is like, "Wow-I wish I'd been there!"


(6) So Karen is all, "Wow-I wish I'd been there!"


Em (4), 'goes' significa praticamente a mesma coisa que 'as said' (disse); é usado para relatar as palavras exatas de Karen. Em (5), significa que o orador está nos dizendo mais ou menos o que Karen disse. Se Karen tivesse usado palavras diferentes para a mesma ideia básica, (5) seria apropriado, mas (4) não seria. Finalmente, o 'all' em (6) é uma construção relativamente nova. Na maioria das áreas onde é usado, significa algo parecido, mas com emoção extra. Se Karen estivesse simplesmente relatando o tempo, não haveria problema em dizer: "She's like, são cinco horas". Por outro lado, seria estranho dizer: "She's is all, são cinco horas", a menos que houvesse algo empolgante em ser cinco horas.


É uma maneira preguiçosa de falar? De modo nenhum; a geração mais jovem criou três maneiras distintas, onde anteriormente só existia a palavra "said". A linguagem nunca vai parar de mudar; continuará a responder às necessidades das pessoas que a usam. Então, da próxima vez que uma nova frase irritar seus ouvidos, lembre-se de que, como tudo o mais na natureza, o idioma inglês é uma obra em desenvolvimento.
Para mais informações
Aitcheson, lean. 1991. Language Change: Progress or Decay? Cambridge: Cambridge University Press.
Bryson, Bill. 1991. Mother Tongue: The English Language. New York: Penguin Books.


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segunda-feira, 23 de julho de 2018

GDPR e nós, os tradutores!


Tradução do artigo de

Pieter Beens

Com o Regulamento Geral Europeu de Proteção de Dados em pleno vigor desde 25 de maio de 2018, as empresas que manipulam dados pessoais de pessoas na área econômica europeia devem cumprir as estipulações estabelecidas na diretiva. 

O que os tradutores freelancers devem fazer para garantir o cumprimento dos requisitos?

Este artigo lista as cinco melhores práticas em torno do GDPR para os tradutores.

O GDPR para tradutores

O GDPR não necessita mais de nenhuma introdução. Nos últimos meses, e especialmente nas últimas semanas, as pessoas foram inundadas por e-mails solicitando-lhes o consentimento para o uso de dados pessoais, instadas a assinar novos contratos e informadas sobre seus direitos como "titulares de dados". Que os tradutores estavam lutando com o novo regulamento também ficou claro por todas as reações que recebi no meu blog anterior sobre


A postagem no blog realmente chamou a atenção, oferecendo uma visão fundamental de tudo que os tradutores (e outros profissionais) devem saber e fazer em relação ao GDPR. Em alguns casos, o GDPR realmente requer muito trabalho, mas há também o lado positivo da moeda: nos últimos meses traduzi dezenas de milhares de palavras sobre privacidade, consentimento e proteção de dados oficiais. E, pelos comentários de muitos colegas, não sou o único que desfruta de uma intensa carga de trabalho sobre algo que foi carinhosamente chamado de “Paraíso dos Advogados”.
No entanto, o que os tradutores podem fazer para garantir que todos os aspectos complexos da matéria estejam cobertos? As cinco melhores práticas abaixo podem oferecer uma ajuda.

1. Primeiras coisas em primeiro: conheça a sua posição em relação ao GDPR

Embora o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados ameace empresas e organizações que não utilizem métodos e informações "transparentes" e "não ambíguas", e prega que evitem [utilizem] termos ilegíveis e permeados de condições juridicamente complexas, o regulamento em si é um verdadeiro labirinto para pessoas não acostumadas com as práticas políticas públicas e privadas. 
Como resultado, os tradutores desconhecem as regras que deveriam seguir, ou implementar medidas para as quais não estariam obrigados. Para ajudá-los um pouco, criei o fluxograma acima, que, em poucas palavras, contém os requisitos do GDPR.

Você se enquadra na caixinha verde? Então siga adiante. Se não, tenha certeza de que não precisa implementar nenhuma regra a menos que o negócio de sua empresa seja alterado no futuro.

2. Obtenha informações sobre os dados pessoais que você está coletando

É importante saber quais dados pessoais você está coletando, e de onde eles provêm. Se estiver trabalhando apenas para negócios especializados em traduções técnicas, literatura ou algo similar, não deve se preocupar com a coleta de dados à luz do GDPR. Se estiver trabalhando para pessoas fora do Espaço Econômico Europeu (EEE), não há motivos para se preocupar. No entanto, até mesmo um pequeno cliente particular pode abalar o seu negócio como um todo. Esteja também atento quando estiver lidando com dados de indivíduos de todos os países pertencentes à (EEE): você deverá seguir o GDPR. O difícil é que, quando se está traduzindo dados individuais de um cliente, dados de funcionários para uma empresa, ou dados médicos recebidos em um projeto de uma agência de tradução, você também deve se ater a todos os aspectos do GDPR. Isso também se aplica quando você não atende a indivíduos europeus nos negócios, mas está coletando endereços de e-mail para enviar boletins informativos.
Existem vários dados pessoais que podemos coletar - e por vários motivos. Os tradutores que trabalham para pessoas físicas geralmente coletam os seguintes dados 'gerais':
  • Nome
  • Endereço
  • Endereço de Email
  • Número de Telefone
Para este tipo de dados, nenhum requisito especial se aplica.
No entanto, existem também tipos especiais de dados, chamados "dados sensíveis".
Esses dados dizem respeito a:
  • Raça e etnia
  • Crenças políticas, religiosas ou filosóficas, incluindo filiação sindical
  • Saúde, vida sexual e orientação sexual
  • Dados genéticos e biométricos
O artigo 9.º (1) do GDPR declara:
'Tratamento de dados pessoais que revelem origem racial ou étnica, opiniões políticas, crenças religiosas ou filosóficas, ou filiação sindical, bem como de dados genéticos, dados biométricos com a finalidade de identificar de forma exclusiva uma pessoa, dados relativos a saúde ou dados relativos a sexualidade ou orientação sexual de uma pessoa.
Estes tipos de dados só podem ser processados ​​se houver consentimento explícito
do sujeito dos dados ou se o processamento for necessário por diferentes razões.

3. Ater-se ao uso do Google Translate (e outros mecanismos de tradução)

Eu admito, tradutores profissionais não deveriam usar o Google Tradutor e outros similares para suas traduções. No entanto, dados os comentários de pessoas de negócios, você certamente não é o único a usar mecanismos de tradução para procurar uma palavra específica ou encontrar um sinônimo útil. Usar o Google Tradutor e seus concorrentes para traduzir textos contendo dados pessoais, está fora de questão agora. Os termos de serviço do Google, por exemplo, afirmam:
'Quando você faz upload, submete, armazena, envia ou recebe conteúdo para ou através de nossos serviços, você concede ao Google (e àqueles com quem trabalhamos) uma licença mundial para usar, hospedar, armazenar, reproduzir, modificar, criar trabalhos derivados (como os resultantes de traduções, adaptações ou outras alterações que fazemos para que seu conteúdo funcione melhor com nossos serviços), comunicar, publicar, distribuir, divulgar e exibir publicamente tal conteúdo '.
Se você ainda quiser usar o Google Tradutor, o DeepL e outros mecanismos de tradução, assine um acordo de processamento de dados, mas são pequenas as chances de que esses gigantes estejam dispostos a redigir um contrato especial para tradutores freelancers que desejem facilitar o trabalho fazendo uso de traduções automáticas de máquinas.

4. Implementar controles para anonimizar e disfarçar os dados

O GDPR introduziu requisitos para anonimizar e atribuir pseudônimos  aos dados pessoais. Com a "pseudonimização", os dados são separados dos identificadores diretos, de modo que a ligação a uma identidade não é possível sem informações adicionais, que são mantidas separadamente. Ao usar tal artifício ("pseudonimização"), os riscos associados ao processamento de dados podem ser limitados, mas os dados ainda podem ser usados. A "pseudonimização" e o anonimato podem, no entanto, ser onerosos. Você pode aliviar a dor e acelerar o processo usando macros ou encontrar e substituir características/recursos. Se estiver usando o SDL Trados Studio, pode usar projectAnonimizer, uma ferramenta projetada para proteger dados durante um projeto de conversão, convertendo-o em tags. Ao término de um projeto, os usuários também podem 'desproteger' os dados, portanto, a ferramenta não garante totalmente que você esteja obedecendo aos requisitos GDPR.

5. Verifique se você está usando criptografia

Dito isto, a implementação do GDPR não está isenta de seus aspectos humanos. Em todo o processo, tanto pessoas como a tecnologia podem ser o elo mais fraco. Para evitar vazamento de dados pessoais provocado por um hack ou outro tipo de furto, você pode aplicar a criptografia. A criptografia pode ter várias formas, mas a solução mais comum é aplicar uma senha aos arquivos, pastas, repositórios de dados e softwares. Existem muitas ferramentas disponíveis, portanto sinta-se à vontade para encontrar uma solução de criptografia que funcione melhor para você. E não se esqueça de criar uma conta de usuário com senha para o seu computador (que você deve aplicar ao deixar sua máquina para evitar que seus dados sejam comprometidos ou vistos por curiosos).

Quais são os riscos em casos de não-conformidade?

O GDPR introduz uma multa de € 20 milhões ou 4% do volume de negócios globais/ano, o que for maior, para as empresas que não cumpram as regras de proteção de dados. Isso é assustador, é claro, mas é o preço para os grandes peixes: empresas multinacionais que podem perder essa quantia. Isso não significa, porém, que freelancers e pequenas empresas estejam livres de suas responsabilidades. Todas as empresas que não demonstrarem conformidade estarão sujeitas à penalidades. Na Holanda, no entanto, o secretário de Estado disse que as pequenas empresas não devem esperar uma multa após 25 de maio, desde que possam provar que estão em vias de aplicar a diretiva. Ao mesmo tempo, a autoridade responsável pela execução teme não ter a capacidade necessária para implementar as próprias disposições de proteção de dados.
Conclusão: não tenha tanto medo, mas certifique-se de esforçar-se para cumprir as regras que se aplicam a você!


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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cafeinismo - Você consome muita cafeína?



Os efeitos prejudiciais da cafeína em excesso

Café, terror e o impulso para o cafeinismo

Você acabou de “entornar” seu quinto expresso duplo. As coisas estão ficando estranhas: você não consegue se concentrar, seu peito está apertado e, por alguma razão, continua mexendo os dedos dos pés. Estas são apenas algumas das inúmeras maneiras pelas quais a cafeína pode dificultar a vida. Cada dose é menos agradável que as anteriores.
Muitos de nós evitam com segurança esse ponto no espectro do consumo de cafeína. Optamos por um macchiato gelado ou qualquer outra coisa, e ficamos "de boa". Quantidades moderadas como essa podem nos ajudam na concentração, a estudar e - o mais importante - fazer coisas produtivas pela manhã. Mas a maioria de nós não se satisfaz apenas com quantidades moderadas.
Na tentativa de maximizar os bons efeitos da cafeína, muitos ultrapassam de longe os limites. Subestimamos o quanto já consumimos; bebemos mais, e entramos nesse mundo do "Grande Arrependimento". Essa transição nos transporta de um lugar de produtividade onde realmente desfrutamos nossas vidas, para um onde ficamos nervosos, paranoicos e alterados. Aqui registramos o modo como ocorre essa transição.
Qualidade sobre a quantidade
Quando se trata de cafeína, a quantidade que bebemos varia. Nos Estados Unidos, a média é surpreendentemente insignificante 100 a 200 mg. Em lugares como a Noruega e a Suécia, verifica-se um inconcebível índice de 800 mg. Para referência, cerca de 473 ml do Pike Roast da Starbucks contém 310 mg. Uma dose extra large contém 410 mg.
As doses indesejáveis giram em torno de 400 mg. Se você realmente consumir toda essa dose — o que infelizmente eu tenho feito — encontra-se diretamente nesse espaço. Este é o ponto em que a maioria de nós passa de feliz e produtivo para, bem...tudo de ruim.
A maldição do excesso de cafeína não é apenas sobre a quantidade - mas também sobre o período de tempo em que é consumida. A cafeína leva cerca de quinze minutos para iniciar a digestão no fígado, e outros trinta para terminar. Então, tem uma meia-vida de cerca de quatro horas. Isso significa que para atravessar de um mundo para outro é preciso beber muito depressa.
Essa experiência agrava-se pelo fato de que, nos primeiros quinze minutos, é um verdadeiro voo às cegas. Ou seja, não nos damos conta da quantidade já ingerida. Isso cria uma janela terrível na qual, enquanto procuramos pelos efeitos desejáveis, acabamos por beber demais.
Perceba que minha conversa até agora se concentrou no café. Há uma razão para isso: o café tem mais miligramas de cafeína por ml do que o chá, chocolate, refrigerante ou bebidas energéticas. É, em outras palavras, o principal responsável por essa experiência, mais do que qualquer um dos outros. Se você se sentir mal depois de comer chocolate ou ingerir muita bebida energética, provavelmente não será por causa da cafeína.
A cafeína no seu cérebro
Para que a cafeína exerça seus efeitos sobre nós, ela precisa passar pelo processo de conversão no fígado. Este processo reduz a forma original para metilxantina, a molécula responsável por todos os efeitos no corpo. Uma vez convertida, a versão modificada entrará no sangue e será enviada ao cérebro.
Quando metilxantina entra no cérebro, bloqueia nossos receptores de adenosina. A adenosina é uma molécula que diminui a excitação e conduz o corpo para o sono. Ela se acumula ao longo do dia como um subproduto do metabolismo celular, e quanto mais se acumula, mais prepara o nosso corpo para o sono. As pessoas às vezes chamam isso de "freios" do corpo: quanto mais há, mais nos desacelera.
Os receptores de adenosina são onipresentes em todo o cérebro. O maior responsável pelos ciclos de sono-vigília é o prosencéfalo basal. Essa estrutura do lóbulo frontal funciona como um “interruptor” biológico para o cérebro. Ela ajuda a coordenar a atividade de nossas redes de excitação (chamadas de sistema de ativação ascendente) para alterar o nível geral de alerta e excitação do nosso cérebro.
Os efeitos desejáveis da cafeína se manifestam nessas redes de alerta. Que secretam neurotransmissores como dopamina e norepinefrina, e nos tornam mais alertas, motivados, atentos e funcionais. Como a adenosina não aciona os freios desses sistemas, eles ficam sobrecarregados. O resultado é a estimulação e a alegria que a maioria de nós obtém daqueles lattes gelados matinais.
Essas redes de alerta também explicam os efeitos miseráveis da cafeína. Numa tentativa de maximizar esses sentimentos agradáveis, muitos de nós bebemos além do limite. Cresce nossa impaciência na espera pelo efeito animador, tomamos outras duas doses, e só depois percebemos o erro dessa decisão. É quando a nossa experiência só piora.
Quando o bom se torna ruim
A experiência do excesso de cafeína é chamada cafeinismo. Alguns dos sintomas mais comuns incluem nervosismo, irritabilidade, taquicardia (ritmo cardíaco acelerado), “falha gastrointestinal” e uma sensação de mal-estar geral. Esses sintomas surgem em parte pela superativação dos sistemas de excitação do cérebro, mas também, em parte, por outro motivo.
No campo da ecologia comportamental, existe a ideia chamada de Continuum de iminência predatória. Esse Continuum sugere que a atividade neural do nosso cérebro muda de maneiras distintas quanto mais nos aproximamos de um predador. Tais mudanças existem em três etapas:
  1. Pré-encontro. Significa a vida antes do encontro com a fera. Você relaxa, sai, come e envolve-se em outras tarefas cognitivamente complexas. Como cálculos matemáticos ou algo do gênero.
  2. Pós-encontro. É a vida após conhecer a fera. Você entra em pânico, congela, procura uma fuga. A matemática se torna um pouco mais difícil.
  3. Pronto para o ataque É quando a fera te identifica e parte para a agressão. Você corre. Vocês brigam. Talvez você escape. Talvez não. De qualquer maneira, você está assustado: definitivamente não há mais espaço para cálculos.
Quanto mais próximo chegarmos desse predador, mais as áreas do mesencéfalo (em nosso cérebro) assumem o controle. Essas regiões são frequentemente responsáveis ​​por funções de sobrevivência, como lutar ou fugir. À medida que aumenta sua atividade, nosso cérebro "superior" - aquela região responsável por pensar, planejar, tomar decisões e efetuar cálculos - é desligada.
Enquanto várias partes do cérebro estão envolvidas nesse processo, três se destacam: a amígdala - chamada "centro do medo" -, o cinza periaquedutal - um par de núcleos envolvidos na inibição da dor -, e o córtex pré-frontal médio uma área responsável por inibir as duas primeiras regiões. À medida que a amígdala e o cinza periaquedutal aumentam sua atividade, o córtex pré-frontal é desligado.
O que chama a atenção nesse continuum é que muita cafeína pode provocar uma mudança semelhante na atividade neural. Quando perto de nosso limite - isto é, quando estamos numa overdose - nos aproximamos do estágio pós-encontro: nossa amígdala e o cinza periaquedutal ficam mais ativos, enquanto o córtex pré-frontal se apaga. Demasiada cafeína, então, invoca uma experiência semelhante a ter se deparado com um leão.
Não é para todos
Agora, você pode estar pensando: “Uau, eu nunca tive essa experiência antes. Isso tudo é fantasia." Se assim for, garanto que foi por pura sorte. Existem diferenças individuais na forma como os nossos corpos processam a cafeína, por isso alguns de nós inevitavelmente digerem mais rapidamente, deixando-a com meias-vidas mais curtas, etc. Essas diferenças diminuem as chances de acumular uma concentração indesejável. Mas há outra razão pela qual podemos reagir de formas diferentes.
A experiência do cafeinismo é mais provável de ocorrer em pessoas com predisposições para a ansiedade. Em pessoas assim, quantidades menores podem provocar paranoia e nervosismo - perfis semelhantes ao estágio pós-encontro. Nem todo mundo compartilha tais propensões, então nem todos sentirão os mesmos efeitos.
Tais disposições são importantes por causa da maneira como as emoções funcionam em nosso corpo. A Teoria da avaliação da emoção, por exemplo, preconiza que a emoção tem componentes fisiológico e cognitivo. Isso significa que podemos ter a mesma experiência fisiológica - o peito apertado, pernas inquietas, aumento do ritmo cardíaco - mas interpretada de maneiras diferentes. É a diferença entre o paraquedismo e a corrida por sua vida.
Aqueles de nós com predisposição para a ansiedade, então, são mais propensos a interpretar a excitação do excesso de cafeína como medo e pânico, não alegria e diversão. Para nós, a experiência inicia o movimento ao longo do continuum predatório: as áreas de luta ou fuga do cérebro assumem o controle, outras partes são desligadas. O resultado é aquela sensação desagradável de nervosismo, agitação e vigilância que sentimos em relação a tudo que nos rodeia.
Para aqueles vitimados pelo cafeinismo, é decisivamente a pior coisa de todas. Todos os benefícios que inicialmente a cafeína proporcionou, desaparecem de repente - ficamos incapazes de nos concentrar, nossas pernas ficam inquietas, não podemos fazer muita coisa. É como se tivéssemos acabado de ver um leão escondido atrás de arbustos bem próximos. Talvez esta seja uma boa informação para se ter em mente antes de engolir o quinto espresso.

Notas especialmente importantes
  1. O material aqui descreve as várias misturas cafeinadas que consumimos, juntamente com os seus níveis correspondentes de cafeína.
  2. Os três trabalhos (aqui, aqui, e aqui) enumeram o lado mais feio da cafeína e como ela é digerida e processada no corpo.
  3. Este artigo resume as interações da cafeína com nossos diferentes receptores de adenosina.
  4. Este outro descreve tudo o que você pode querer saber sobre os sistemas de excitação ascendente e sua interação com a cafeína.
  5. Nestes três trabalhos ( aqui, aqui , e aqui) poderá aprender mais sobre o continuum da iminência predatória e sua manifestação no cérebro.
  6. Este artigo fala sobre os efeitos ansiogênicos da cafeína e como sua origem pode estar relacionada com as mutações no receptor de adenosina.

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